Blog da ABUB

Escolho a Cristo, escolho ser professora

Aproveitando a celebração do dia dos professores, convidamos a assessora auxiliar da ABS Paracambi (RJ) a compartilhar suas reflexões

Por Ilzani Valeira dos Santos*

Eu nasci em Campinas (SP), mas aos quatro anos de idade, junto com a família, mudei para o Rio de Janeiro. Lembro-me de uma infância enriquecida em livros e, como toda criança, uma admiração imensa pela professora. Pequenos quadros, em escrita a giz, sempre permearam minhas brincadeiras domésticas... coisas de criança.

A escola sempre foi um lugar onde eu queria estar. Meus pais, como foram ainda muito cedo atravessados por questões sociais que os fizeram sair da escola, fizeram do ensino o seu compromisso com a prole, o que era uma forma de estar no espaço que lhes foi roubado.

Os anos passaram e na tecitura de muitas conversas e poucas possibilidades na cidade da minha infância, Paracambi (RJ), matriculei-me no curso de formação de professores. Mesmo tendo um certo “jeito” com as crianças, fugi daquele espaço. No primeiro momento entendendo que o ensino não fazia parte da minha vida e que era uma responsabilidade imensa ensinar crianças, pois, mesmo como estudante, via nos olhos dos pequenos um desejo de ter com quem se identificar, seguir, o que me amedrontou. Segui o ensino médio, mas não no mesmo curso.

Concomitantemente ao dia a dia, havia um espaço de ensino - meu primeiro - que não me amedrontava, mas me fazia experimentar o sentido do ser: a comunidade cristã. A ideia de “ensinar” a guardar tudo que Jesus tinha ensinado enchia meu coração de alegria, além de imensa responsabilidade. Eu tinha medo e coragem. Juntei os dois e, depois da confirmação da minha comunidade de fé, fui ao Centro Integrado de Educação e Missões (CIEM), antes Instituto Batista de Educação Religiosa (IBER). Depois resolvi aprofundar os estudos em educação e busquei a pedagogia.

Na faculdade, as perguntas eram outras. Já que a compreensão do meu lugar no Reino de Deus me ajudou a optar por uma carreira profissional, como se daria meu serviço em um contexto tão complexo como o do cenário da educação no Brasil? Como exerceria meu compromisso com Cristo e com a sociedade tão massacrada pela desvalorização das políticas públicas educacionais? A missão estudantil, a ABU, foi meu lugar de aconchego, de choro, de abraço e confronto. Junto a outros estudantes, pastores, profissionais e assessores, entendi à luz da Bíblia que vocação e profissão são aliados, e não concorrentes. São fontes de serviço, cada um à sua maneira.

Meu olhar foi apurado e meu serviço direcionado dentro da educação para a ensino de pessoas com deficiência. Emociona-me todos os dias, desafia-me. Deparo-me ainda com o desejo de fuga, mas o que me faz permanecer é olhar para a educação e ver que foi para um tempo difícil e desafiador que fui chamada, tal qual Ester (1). Tempos de solidão, de desvalorização, de lutas, mas de oportunidades. Envolver-me na missão com pessoas que são duplamente marginalizadas: moradores da Baixada Fluminense (2), recorte geográfico do cenário do Rio de Janeiro que sofrem com a falta de acesso e altos níveis de pobreza, e deficientes. Coloca-me de frente com minhas próprias “deficiências” e me conduz a Cristo, que a todos acolheu e valorizou.

Ao dialogar com os teóricos da educação, com as legislações vigentes, como a Lei Brasileira de Inclusão (3), que assegura os direitos da pessoa com deficiência em todos os aspectos, remeto-me ao Cristo que amou a todos e ofereceu vida, e vida em abundância. Pela vida sou professora, a educação me escolheu, e eu a escolho todos dias, como fruto de minha escolha pelo Cristo

 

(1) Ester 4:12-17

(2) Baixada fluminense é o nome dado à região ao redor do município do Rio de Janeiro, englobando Duque de Caxias, Nova Iguaçu, São João de Meriti, Nilópolis, Belford Roxo, Queimados, Japeri e Mesquita.

(3) Lei 13.146/15: A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência) é destinada a assegurar e a promover, em condições de igualdade, o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais da pessoa com deficiência, visando à sua inclusão social e cidadania.


* Ilzani é assessora auxiliar da ABS Paracambi (RJ), pedagoga, professora de educação especial, mestre em educação pela UFRJ. Atualmente é diretora de educação especial do município de Mesquita, na secretaria de educação do Rio de Janeiro

1 Comentário

Gratidão

Lendo seu texto amiga, lembrei do dia que conheci seus pais e fui recebido com pastéis deliciosos recheados de afeto. É lindo vê como sua vida alcança e abencoa tanta gente como eu. Deus continue te usando.

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