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O que arte tem a ver com evangelismo?

Entre os dias 19 e 20 de maio de 2017, um grupo da Aliança Bíblica Universitária (ABU) e de Profissionais (ABP) da região Leste (Rio de Janeiro e Espírito Santo), com o pessoal de Minas Gerais, organizou o II Fórum Literário Desvendando a Literatura Fantástica de Lewis e Tolkien. Com investimento da Comunidade Internacional de Estudantes Evangélicos (IFES, na sigla em inglês), e de outros grupos, o evento buscou levar o evangelho de forma criativa ao grupo local de Duque de Caxias (RJ), mais especificamente na Faculdade UnigranRio.

Mas será que valeu a pena? É o que conta no texto abaixo Juliana Botelho, uma das idealizadoras e organizadora do Fórum.

Evangelismo criativo e a arte como apologética

Por Juliana Botelho*

Antes de compartilhar sobre a aventura da construção e execução do II Fórum Literário, gostaria de, brevemente, e, com sua permissão, convencê-lo da capacidade apologética contida na imaginação em operação, ou ainda em boas histórias de fantasia.

A professora Holly Ordway, autora da obra Apologetics and the Christian Imagination: An Integrated Approach to Defending the Faith, defende que uma obra de literatura é, à sua maneira, uma obra poderosamente eficaz de apologética. C.S. Lewis [autor de As Crônicas de Nárnia, de livros cristãos, e professor de literatura medieval na universidade britânica de Cambridge], em sua profunda compreensão do conhecimento medieval, considera que a imaginação é um modo do saber, assim como a razão. Na verdade, para ele, a imaginação é necessária para que a razão funcione. Nesse sentido, as apologéticas imaginativa e racional são complementares. Cada uma delas é necessária para o funcionamento pleno e adequado da outra.

No ensaio “Sobre Contos de Fadas”, J.R.R. Tolkien [escritor de O Senhor dos Anéis e professor em Oxford] discute três funções da fantasia: a recuperação, o escape e o consolo. Ele diz:

“A recuperação (que inclui o retorno e a renovação da saúde) é uma retomada – a retomada de uma visão clara. Não digo ‘ver as coisas como elas são’, pois assim me envolveria com os filósofos, mas posso arriscar-me a dizer ‘ver as coisas como devemos (ou deveríamos) vê-las’ – como coisas separadas de nós.” (p. 55 e 56)

Para a professora Ordway, boas histórias e boas poesias podem nos ajudar a ver com mais clareza quando fechamos o livro e voltamos à vida comum. Desse modo, precisamos, para o trabalho da apologética, de histórias que permitam que as pessoas reconheçam em suas próprias vidas o potencial de serem feitas integrais, para que casamentos, famílias e amizades sejam saudáveis e moldados como Deus os fez para ser, para que o nosso “pão de cada dia” seja provado e saboreado uma vez mais, para que haja a possibilidade do amor e perdão divinos.

Tolkien nos mostra como uma história pode ajudar a recuperar o sentido de palavras e ideias que são vitalmente importantes para a apologética.

No nosso contexto, a recuperação é importante porque existe um engano profundo na declaração de que o Brasil é um país cristão. As pessoas estão alienadas ou resistem à Bíblia, a Deus, a Jesus, sem ao menos conhecê-los. Faz-se urgente a tarefa de recuperar conceitos básicos da fé, e, reapresentá-los de maneira mais atrativa e coerente.

Sobre o escape, Lewis e Tolkien são equivocadamente acusados de escapistas. Mas Tolkien nos ajuda ao demarcar que sentir prazer no “escape” oferecido pela literatura de fantasia não é sinal de imaturidade ou de superficialidade. Longe disso. Dependendo das circunstâncias de alguém, o escape pode ser sensato ou até mesmo heroico – do mesmo modo como pode acontecer na “vida real”. Como explica Tolkien no ensaio já mencionado:

“Por que desdenhar um homem se, estando na prisão, ele tenta sair e ir para casa? Ou se, quando não pode fazê-lo, pensa e fala sobre outros assuntos que não carcereiros e muros de prisão? O mundo exterior não se tornou menos real porque o prisioneiro não consegue vê-lo.” (p. 58).

Lewis e Tolkien foram revolucionários ao subcriarem** mundos em que os valores perdidos ainda são importantes e essenciais. Diante da crueldade da primeira guerra mundial, em que combateram juntos, a dureza da sobreposição das máquinas e coisas em relação às pessoas, ambos ousam falar da amizade, camaradagem e companheirismo como valores fundamentais.

A terceira função da fantasia que Tolkien discute é aquilo que ele chama de “consolo” e, acima de tudo, o “consolo do final feliz”. Nesse sentido, Tolkien cunha a visão "eucatastrófica", que começa com o fato de que ela inclui, necessariamente, o reconhecimento da catástrofe. Eucatástrofe significa, portanto, a virada que existe logo após a catástrofe, ou ainda o final feliz que contém, porém, a catástrofe que o precedeu. Tolkien, assim como seu amigo Lewis, era capaz de mostrar uma visão convincente e atrativa da fé cristã, precisamente porque sua fé – e, deste modo, sua visão literária – incluía o sombrio, mas ele sabia que a luz triunfava.

Como explicar o desejo pelo final feliz? Poderia ser devido ao fato que, em um nível fundamental, ele realmente é verdadeiro e estamos capturando um vislumbre dele? É exatamente isto que Tolkien argumenta. Toda a história humana é uma narrativa, diz o autor, e ela possui um final feliz:

“O nascimento de Cristo é a eucatástrofe da história do homem. A ressurreição é a eucatástrofe da história da encarnação. Essa história começa e termina em alegria. Tem preeminentemente a ‘consistência interna da realidade’. […] Essa história é suprema; e é verdadeira.” (p. 69)

Por fim, segundo Ordway, a apologética literária tem muito a oferecer em nosso labor apologético. Não se trata simplesmente da mesma coisa de se elaborar um argumento em forma de história. Em vez disso, a narrativa mostra a verdade e nos ajuda a desejá-la. Ela não é um substituto do ensino da doutrina, mas nos ajuda a ver o que significa a doutrina, porque ela importa e como podemos vivê-la.

Nesse sentido, o que fizemos entre os dias 19 e 20 de maio de 2017 na Faculdade UnigranRio, em Duque de Caxias (RJ), foi evangelização. Encorajados por Lewis e Tolkien, ousamos falar sobre amizade e, além disso, ousamos ser amigos.

Como organizamos tudo isso? Éramos doze pessoas e nos encontrávamos majoritariamente por Skype, quando nos dividimos pelas tarefas de estrutura, acolhimento e conteúdo formativo. O Fórum foi construído com dedicação e esforço de pessoas que ainda ousam doar suas vidas para que outros a ganhem, nesse jogo paradoxal em que se ganha a vida na medida em que se perde.

Ouvimos sobre dragões, tesouros, povos extraterrestres. Tal qual elfos e anões, cantamos, tal qual sorns, poetizamos. Ouvimos sobre a importância de histórias, e, aprendemos a contá-las. Fomos crianças e criamos um mundo que dá de dez a zero nesse único mundo possível vigente. Voltamos para ele, e andaremos nele, ainda que pelo resto de nossas vidas, sabendo que existe sol, e existe Aslam. E que um dia encontraremos plenamente com Ele.

*Juliana é secretária de literatura e arte da região Leste, além de participar da ABU Vitória (ES).

** “Subcriar” é um conceito de Tolkien, que diz que conseguimos criar porque somos imagem e semelhança de Deus, que é Criador, mas, como nossa criação não é como a dele, é uma subcriação.

Organize uma ação de evangelismo criativo!

O relato de Juliana lhe inspirou? Por que você também não busca alcançar seus colegas de forma criativa? Compartilhe com seu grupo local suas ideias! Escreva para o obreiro de sua região e troque uma ideia com um dos participantes do Fórum. Escreva para Juliana em jcarneirobotelho@yahoo.com.br e Eliza em elizaferes@gmail.com.

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