Blog da ABUB

Discutindo racismo na ABUB

Por Luciana Petersen e Andréa Santos*

O projeto "ABUB Contra o Racismo", realizado pelo nosso movimento em parceria com a Tearfund, tem como objetivo conscientizar os grupos locais da Aliança Bíblica Universitária do Brasil (ABUB) sobre a realidade da juventude negra que é invisibilizada e exterminada no Brasil.

Foram selecionados por meio de edital facilitadores de doze cidades, focos de atuação do projeto: São Luis (MA), Natal (RN), João Pessoa (PB), Recife (PE), Maceió (Alagoas), Aracaju (SE), Salvador (BA), Vitória (ES), Belo Horizonte (MG), São João Del Rei (MG), São Paulo (SP) e Curitiba (PR).

Depois de encontros de formação realizados em Vitória (ES) e Olinda (PE), cada um dos facilitadores teve a missão de levar a discussão sobre temáticas raciais para seus grupos locais e regiões, e incentivar outras pessoas a fazerem o mesmo, multiplicando os focos de atuação do projeto.

Durante este ano, em todo o Brasil, foram realizadas oficinas, simpósios, rodas de conversa, mesas redondas com pastores e lideranças evangélicas, e diálogo com coletivos negros. Também trabalhamos virtualmente com as campanhas do Dia da Mulher Negra Latinoamericana e Caribenha (25 de julho) e, recentemente, do Dia da Consciência Negra (20 de novembro), ao longo de toda a semana. Na última, disponibilizamos uma compilação de oficinas e EBIs que já estão sendo utilizados em grupos locais da ABUB em todo o Brasil.

As ações do projeto plantaram sementes e geraram frutos dentro e fora do nosso movimento.

Em Presidente Prudente (SP), as oficinas sobre Bíblia e negritude, realizadas com o grupo local, abriram as portas para a ABU junto à direção de uma das universidades da cidade, e o grupo conseguiu espaço para divulgar o movimento nas salas de aula.

A ABU Vitória (ES) realizou um café literário com Marco Davi Nascimento, autor do livro A Religião Mais Negra do Brasil, sobre a relação entre pentecostalismo e negritude. O evento foi também o lançamento do livro A Bíblia e as cotas: reflexões pastorais sobre política de ações afirmativas’. A atividade aconteceu no Museu Capixaba do Negro, e foi a primeira oficina do espaço com o recorte da religiosidade cristã.

A oficina realizada pela ABS, ABU e ABP de Belo Horizonte (MG) na igreja Assembleia de Deus contou com um importante momento de troca e diálogo entre o grupo local e o Coletivo Negro Tudo Nosso, da Universidade Federal de Minas Gerais, que levou uma reflexão sobre racismo na universidade e sociedade.

Em Porto Alegre (RS), durante o mês de novembro, a Comunidade Cristã Abrigo realizou em sua página oficial a campanha "Minha Fé Não Combina com Racismo - Mês da Consciência Negra" e um dos posts foi a entrevista com a facilitadora da região Sul, Andréa Santos.

Levar essa discussão para os campos de atuação da ABUB nem sempre foi fácil, falas racistas foram ouvidas mesmo dentro das ações do projeto. Em um evento regional, depois de uma mesa redonda sobre Bíblia e negritude, alguém se dirigiu a uma das facilitadoras sugerindo que negros devem só ignorar o racismo, pois “Deus nem se importa com isso”. São falas dolorosas que mostram a necessidade de continuarmos lutando e conscientizando dentro dos espaços cristãos, onde o assunto do racismo é tão pouco discutido.

Para além das reações negativas, são inúmeros os relatos de pessoas que descobriram-se negras dentro das oficinas, souberam que Deus se importa com o povo preto, na Bíblia e hoje, e se sentiram chamadas a lutar por justiça. O projeto ABUB Contra o Racismo foi um tempo muito bonito de reconhecer nossa identidade negra em Cristo, tratar as feridas geradas pelo racismo e confrontar nossos pecados de desumanização do outro. Aceitamos esse convite que vem do próprio Cristo e marchamos cheios de coragem, em uma intensa busca por libertação e reconciliação.

Confira alguns depoimentos de facilitadores do projeto

Depoimento de Helen, ABU Presidente Prudente (SP):

Depoimento Andréa Santos, ABU Curitiba (PR):

“Eu acredito que trazer essas pautas para dentro de um espaço como a igreja é possibilitar que as pessoas reflitam à luz da Palavra algumas práticas pecaminosas da nossa sociedade. Fazer a oficina em uma igreja foi um desafio, nunca se sabe como as pessoas vão reagir ao serem confrontadas com seus pecados. Declarar que o racismo é um pecado e que está presente dentro das igrejas é incômodo, doloroso. Mas ao mesmo tempo foi libertador para mim falar que isso existe e que é errado.

"Nós tivemos a participação de 14 pessoas de diferentes idades e realidades. Foi um momento bastante importante para ouvir e aprender mais sobre o que é o racismo, como ele está presente em nosso cotidiano e como ele afeta a vida de todos. Acredito que muitos que estavam presentes se surpreenderam com alguns pontos trabalhados. Uma participante relatou que uma das coisas que mais a impactou foi a fala sobre o racismo científico, através do qual diversas teorias racistas foram disseminadas. Outro participante falou que nunca tinha reparado que não possui professores negros na graduação e que ao ser questionado por isso na oficina fez com refletisse sobre o porquê disso. Foi possível entender que, seja mulher ou homem, negra (o) ou branca (o), somos todos criação, e a reconciliação por meio de Cristo Jesus é para tudo e todas as coisas.

"O processo de preparar a oficina também foi especial, mais do que estudar um tema, foi estudar partes da minha vida que foram diminuídas e menosprezadas. Mais um passo no processo de restauração da minha identidade em Cristo.

Depoimento Lucas Barbosa, ABU Natal (RN):

“O projeto foi um conveniente 'sacode' em mim, Débora e tantos outros que têm se juntado e unido em prol desse objetivo comum. É perceptível em nós que houve melhora na sensibilidade em relação ao assunto. Temos, a cada conversa, nos articulando mais, e juntos nos sentimos cada vez mais capazes de resistir. Tem sido surpreendente e de uma grande alegria descobrir e encontrar cada vez mais pessoas, com mais ou menos profundidade na discussão, dispostas a refletir e agir frente ao pecado e ao mal que é o racismo. Publicizar a recusa em engolir e ignorar o racismo está nos abrindo espaço para reconhecer que não estamos a sós. Nós não sabíamos, como Elias quando fugia de Jezabel, que junto a nossa luta havia tantos irmãos. Glória a Deus!”

Depoimento Vanessa Santos, ABU Salvador (BA):

“O Simpósio da Reforma Protestante, realizado pela ABU Salvador (BA), aconteceu em sua quarta edição e teve como tema "500 anos de Reforma Protestante - A igreja diante do racismo: o que mudou até aqui?". O evento corroborou para as discussões, campanhas e oficinas que vêm ocorrendo na nossa região sobre a temática. Foi desafiador, e ao mesmo tempo doloroso, ouvir sobre o assunto, mas também trouxe esperança e ânimo para nós, seja enquanto cristãos, universitários, ou seja enquanto sociedade para sermos agentes de mudança. E isso é importante, querer mudar, combater, levar esperança, novidade de vida, uma nova lógica a este mundo ainda racista.

"Além da experiência com o simpósio, o projeto me levou a estudar mais sobre minha fé, sobre o histórico do negro no Brasil e especialmente sobre irmãos e irmãs negras que marcaram a história mas que são ignorados pela mesma ou não se expressa a fé deles.

"Pude também dialogar sobre fé, Bíblia e racismo com jovens de uma igreja e foi um momento de escuta, de compartilhar e aprender, de exercitar o domínio próprio quanto a certas falas, entendendo que o tema é delicado e que esses momentos fazem parte. Conclui o momento com a sensação de que a semente foi plantada e pedi que eles venham a regar e orar para o Senhor dar o crescimento.

"Com o grupo local houve dois momentos de oficina, uma em uma reunião e outra num Treinamento Intensivo de Final de Semana (TIFS). Em ambos momentos percebi como é preciso compartilhar sobre o que a Bíblia tem a dizer, o que ela demonstra sobre racismo, sobre os negros e negras em suas páginas, sobre um Deus que não faz acepção de pessoas. Também percebi que esses momentos são espaço de desabafo, cura, desafio e fortalecimento de laços.

 

*Ambas facilitadoras do projeto, Luciana é estudante de jornalismo e participa da ABU São João del Rei, enquanto Andréa é estudante de Letras e participa da ABU Curitiba (PR).

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