Entre nós

A centralidade de Cristo na leitura e na aplicação das Escrituras

Carluci dos Santos*

O primeiro passo para pensar as Escrituras e sua relevância para os dias de hoje é buscar nelas o conhecimento de Jesus Cristo, o filho de Deus.

Sem uma visão bíblica, clara da pessoa e obra de Jesus Cristo e sem um compromisso vital com ele, não se constrói pontes ou se aplica de modo frutífero as Escrituras às situações e dilemas de nossa sociedade. É imperativo conhecer ou redescobrir o Cristo das Escrituras no centro do plano de Deus para a redenção e reconstrução de minha humanidade, de toda a humanidade. Construímos pontes a partir de uma humanidade redimida que encontra o seu propósito e vocação na pessoa de Jesus Cristo (Efésios 2:10). A relevância e pertinência das Escrituras, seja para a geração dos apóstolos ou para as gerações seguintes, reside na singularidade da pessoa de Cristo: sem Cristo, o filho de Deus, as Escrituras perdem a sua relevância e pertinência em qualquer geração. Sem Cristo, perdemos nossa vocação e o nosso trabalho é vão; sem ele, nada construímos; sem Cristo somos cegos; e estamos todos perdidos! (Mateus 16:26) Usando as Escrituras corretamente, buscamos ver Cristo em cada área de nossas vidas e da sociedade que queremos alcançar com sua Palavra. O choque de cosmovisões é inevitável. Somente com o Cristo bíblico podemos confrontar a cosmovisão racionalista e materialista que molda nossa geração.

O uso correto das Escrituras nos leva necessariamente a uma visão libertadora da pessoa de Jesus Cristo, o filho de Deus, e a uma nova identidade.

As multidões – entre coletores de impostos judeus e soldados romanos – ao ouvirem a pregação de João Batista, e tendo entendido sua mensagem, perguntaram-lhe, “ O que devemos fazer então?” (Lucas 2:10-14). À pregação bíblica profética, cristocêntrica e genuína corresponde uma resposta ética que implica em uma mudança de rumo. Portanto, a pergunta fundamental para nós é na verdade, “quem é o Cristo que vemos” ou “qual é o Cristo que pregamos” a partir de nossa leitura bíblica? Em sua essência, e em coerência com o ensino das Escrituras, o Cristo das Escrituras nos chama ao arrependimento; ele nos oferece o perdão gratuito de Deus e nos redireciona em nossa busca, em nossa formação e empreendimentos (Efésios 2:1-10). Entretanto, tanto no presente como em outros momentos da história de movimentos “cristãos” e “pseudocristãos” vê-se que é possível viver em uma geração, ou participar de uma instituição religiosa cristã,  na qual, ainda que as Escrituras estejam na base de sua identidade, o Cristo que os apóstolos viram, seguiram e proclamaram já se perdeu. Resgatar as Escrituras para nossa geração é resgatar o Cristo, a pedra viva, conforme as Escrituras o apresentam. Este é o nosso imperativo. Em Cristo, nós também como pedras vivas, somos edificados como casa espiritual para sermos sacerdotes santos, e trazer redenção, vida e sanidade onde estivermos (I Pedro 2:4-5).

Os discípulos de Jesus (re)leram as Escrituras a partir da pessoa de Jesus Cristo.

A Lei, os Profetas – todas as Escrituras – falam a respeito de Jesus, o filho de Maria, o filho de Deus (Lucas 24:25-27, 45-49). Quando falamos de Escrituras no contexto cristão, devemos lembrar que as Escrituras as quais Jesus Cristo e os apóstolos leram e interpretaram são o que hoje chamamos de Antigo Testamento (AT). Foi com base nestes textos que Jesus lhes explicou sua identidade, propósito e missão (João 5:39, Lucas 24:25-27); foi na leitura destes textos que os apóstolos se embasaram para a missão evangelizadora e transformadora de suas vidas pessoais e da realidade político-social dos seus dias. Os livros e cartas que compõem o que chamamos Novo Testamento nascem no encontro daqueles que seguiram a Cristo na sua história e nas Escrituras; na caminhada com Jesus Cristo eles leram ou releram as Escrituras; creram que Jesus era o Cristo, e colocaram em prática os seus ensinamentos. Vale ressaltar também que os discípulos-apóstolos cumpriram sua missão de proclamar a Cristo em um ambiente que lhes foi hostil, repressivo, e que não poupou a vida de muitos. Não era politicamente correto crer o que eles creram. Usar as Escrituras com pertinência, fidelidade e relevância em nossa geração exigirá de nós esta mesma disposição: um caminhar com o Cristo Emanuel, o Jesus de Nazaré, recriando a nossa história através das Escrituras rumo ao Reino de Deus.

Como na igreja dos primeiros séculos, proclamar Cristo à nossa geração significa chamar nossa geração ao arrependimento para o perdão dos nossos pecados. Isto requer de nós – primeiro – uma transformação ou conversão genuína no seguir a Jesus. Jesus tanto demostrou o amor de Deus aos rejeitados pela sociedade religiosa dos seus dias (João 8:1-11, Marcos 1:40-44) como confrontou a hipocrisia da liderança de seus dias, quando esta manipulou e comercializou o sagrado, abusou do poder na esfera do sagrado, etc., etc. (Mateus 21:12-27, Marcos 7:1-20, 12:1-11). Somos chamados à fidelidade no seguir o exemplo de Cristo. Se não formos fiéis às Escrituras e à sua mensagem, elas perdem sua relevância e pertinência para nossa geração. Ser relevante e pertinente não é sinônimo de ser popular. Rejeição é fato bíblico na vida dos profetas que precederam a Cristo, e dos apóstolos e discípulos que o seguiram. Jesus Cristo, “a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular” (Marcos 12:10, cf. Salmo 118:22). “Portanto, para vocês, os que creem, esta pedra é preciosa; mas para os que não creem, ‘a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular’, e, pedra de tropeço e rocha que faz cair.” (1 Pedro 2:7-8). Cristo é a pedra viva com a qual construímos nossas vidas e moldamos nossa visão do mundo. Juntamente com Ele, somos pedras vivas no edifício de Deus, sendo edificados e edificando.

Estevão, sendo questionado diante do Sinédrio, vê a glória de Deus. Ele vê Jesus Cristo em pé, à direita de Deus. Em seu discurso, que precedeu à sua morte, Estevão faz uma leitura do AT expondo e denunciando a rebeldia do povo de Israel e de seus líderes religiosos. Estevão reconta a história dos Patriarcas, a passagem pelo Egito, a libertação da escravidão, o tempo no deserto sob a liderança de Moisés, o período de Salomão e do Primeiro Templo, chegando até aquele momento em que ele se encontra perante o Sinédrio. Ali ele dá a razão de sua fé: eles rejeitaram a mensagem dos profetas e crucificaram a Cristo. Este Cristo é o que Estevão agora proclama com coragem e convicção (Atos 6:8-7:60).  Sua ousadia custou-lhe a vida.

Em síntese, vivemos em uma geração que se conforma com uma religiosidade ou cristianismo secular. Não sejamos como os líderes religiosos dos dias de Jesus, desconhecendo as Escrituras e negando o poder de Deus. É imperativo conhecer ou redescobrir e seguir o Cristo que os apóstolos proclamaram e seguiram para ter o impacto que queremos ter em nossa geração.  A narrativa bíblica nos conduz a Jesus Cristo como ponto máximo da revelação de Deus e do projeto de Deus para reconstruir a humanidade. Usamos as Escrituras para interpretar as Escrituras, tendo Cristo como sua chave hermenêutica. Enfim, reconhecemos nossa necessidade de ler as Escrituras em oração e na dependência do Espírito Santo. E que em cada EBI que preparamos ou dirigimos, afirmemos nossa entrega radical a Jesus.

 

* Carluci dos Santos foi obreiro da ABUB, da região Centro-Oeste, entre os anos de 1992-2002. Carluci, Christina (sua esposa) e suas três filhas (Isabela, Nicoli, e Hannah) se mudaram para o Canadá em 2002 para que ele fosse fazer um doutorado em Antigo Testamento no Wycliffe College, na Universidade de Toronto. Ele trabalha com o ensino teológico formal e não formal, no Canadá e na América Latina. Desde 2008 ele é o diretor executivo da Missão Latino Americana do Canadá.

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