Entre nós

O alcance em meio à dor

Por Jefferson Nunes*

A temática da depressão, ansiedade e suicídio têm tomado um lugar comum em nossas conversas, notícias e discussões diárias, e já se faz presente em nosso contexto de amigos, familiares, companheiros e bem possivelmente pode ser bem conhecida e encarnada por você, leitor ou leitora.
Em tempos nos quais digerimos desenfreadamente os estímulos condicionantes do consumismo, relativismo e do hedonismo, não nos seria estranho esbarrar com as estatísticas preocupantes sobre a depressão, a ansiedade e o suicídio, considerando, em curto prazo, a possibilidade de termos um problema de saúde pública.

Fala-se que 5,8% da população brasileira sofre com depressão, isso equivale a 11,5 milhões de pessoas, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS). Significa que, em uma sala com 18 pessoas, uma é afetada pelo transtorno. Com a ansiedade não é diferente, o Brasil é o país com maior índice de transtornos de ansiedade do mundo, 9,3% da população padece com o problema (OMS), o equivalente a 18,6 milhões de pessoas, uma em cada onze. Já os números crescentes do suicídio têm demandado lentes ampliadoras e olhares mais atentos à questão, visto que “a cada 40 segundos uma pessoa se mata no mundo”, de acordo com o Centro de Valorização da Vida (CVV). No Brasil, considera-se que “em uma sala com 30 pessoas, cinco delas já pensaram em suicídio” (CVV). Quando o pensamento evolui para as vias de fato, nos deixa o triste relato de que “25 brasileiros morrem por dia vítimas de suicídio” (CVV). Ou seja, a cada hora um brasileiro tira sua própria vida.

Ao desenvolver estudo específico para averiguar a ideação suicida, a Unicamp chegou a conclusão de que 17% dos brasileiros chegaram a pensar em dar fim à própria vida em alguma época, e 4,8% chegaram a arquitetar um plano para tal. São dados alarmantes. As estatísticas sobre suicídio só aumentam, muito provavelmente você que está lendo já deve ter notícia de ao menos um caso de suicídio em seu contexto.

Mais particularmente no contexto universitário, que é um prolongamento do ambiente escolar e uma amostra cultural da sociedade, identificamos que sua sistemática aplicada tem deixado os estudantes doentes. A pressão por boas notas, a extenuante carga horária de aulas e estudos, as jornadas de três turnos entre trabalho e faculdade, as dificuldades financeiras, o esgotamento físico e mental, e em casos mais particulares, os comentários preconceituosos e até a rejeição, como a sofrida por alguns cotistas, contribuem para o desencadeamento desses transtornos e das ideações suicidas. A ameaça do desemprego e do fracasso profissional que acompanham o estudante na transição de sua formação, e que pode perdurar por sua vida profissional, acaba por corroborar para que esses fatores perdurem, o que demanda uma atenção especial preventiva e interventiva na grande maioria dos casos.

Nesse sentido, vale uma abordagem específica e integrativa da temática por parte dos grupos locais da Aliança Bíblica de Secundaristas (ABS), Aliança Bíblica Universitária (ABU) e Aliança Bíblica de Profissionais (ABP) no intuito de trabalhar esse aspecto preventivo e interventivo que tais problemáticas demandam, respeitando, por óbvio, o contexto particular que se aplica.

Como cita Cecília Meireles, “já não se morre de velhice nem de acidente, nem de doença, mas... de indiferença”. Dessa forma, ações simples e carregadas de empatia são bastante efetivas. Destacaria iniciativas como os abraços grátis e outras que pude observar na Semana da Esperança** ocorrida em 2016 na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), iniciativa da ABU Recife (PE). Houve, por exemplo, o mural de expressão de sentimentos e o momento de contato que singelamente só exigia o contato de olhos em silêncio entre pessoas desconhecidas.

Há outras ideias já disseminadas por outros grupos e igualmente válidas, como a criação de grupos de apoio nas redes sociais para compartilhar relatos e oferecer ajuda, a integração com núcleos de prevenção e atendimento psicológico das universidades, bem como a estruturação de grupos de prevenção e combate aos transtornos mentais. Essas ações são mais profundas, diretivas, específicas e efetivas, porém exigem uma organização e sistemática maior, além de envolvimento com outras frentes de trabalho.

As demais possibilidades de abordagens possíveis remetem a Semana da Esperança e ao evento “Deus em Questão”, da ABU Natal (RN). Esses demandam uma organização logística maior e uma integração multidisciplinar. No caso do primeiro, houve a realização de mesa redonda, debates e exibição de filmes voltados para o tema. No segundo, a proposta foi mais pontual, o debate entre a temática e a visão teológica.

Portanto, com essas ideias conseguimos abordar o assunto dentro dos ambientes diversos da missão, preocupados em levar sempre a proposta contracultural do evangelho, e alcançar os que estão perdidos em meio à dor, sempre preparados para justificar qual é a razão da nossa esperança.

 

* Jefferson participou da ABU Recife (PE) desde 2006 e hoje está na ABP. Atualmente é psicólogo clínico.

**A Semana da Esperança é uma iniciativa criada pelo grupo da ABU Viçosa (MG) em 1998. Confrontados com histórias de depressão e suicídio em sua universidade, os abeuenses decidiram criar ações especiais durante uma semana para levar uma mensagem de esperança ao ambiente estudantil. Eles continuam realizando a ação bianualmente há 20 anos. Outros grupos, como a ABU Seropédica (RJ), importaram o modelo em diferentes épocas. Entre os mais recentes, está a ABU Recife (PE), citada neste artigo.

 

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