Entre nós

"Ensine os estudantes a lerem a Bíblia"

O assessor da região Centro-Oeste, Natan de Castro, já está ficando conhecido como o obreiro da oficina Como tranformar seu EBI em exposição bíblica (você pode fazer download aqui). É fáci ver estudantes empolgados por descobrirem um "novo" modo de estudar e apresentar a palavra de Deus. Nesta entrevista Natan traz algumas reflexões sobre o estudo da Bíblia, dificuldades que podemos ter ao estudá-la e também como começou a ideia da oficina!

 

Ao longo de sua experiência como estudante e com estudantes, quais frutos o estudo da Bíblia pode trazer à vida de um jovem?

Creio que o encontro com a Palavra de Deus é sempre transformador, não só para o estudante, mas pra toda pessoa que se aproxima da Bíblia com reverência e interesse sincero em conhecer a Deus. É claro que é possível se aproximar da Bíblia com outros interesses. O mero acúmulo de conhecimento a respeito das doutrinas bíblicas, a memorização de versículos pra “provar” pra outras pessoas que você está certo e a busca seletiva por passagens bíblicas que só contenham promessas de bênçãos divinas são exemplos de motivações erradas para se ler a Bíblia.

Como Paulo nos diz, o conhecimento da verdade precisa produzir em nós a prática da piedade (Cf. Tito 1:1). Estudar a Bíblia representa um grande perigo para nossa espiritualidade se aquilo que aprendemos não muda nosso jeito de viver.

Lembro-me que quando eu tinha uns 15 anos de idade consegui ler pela primeira vez a Bíblia toda de capa a capa. Isso foi uma grande armadilha para o meu ego, pois em minha comunidade eu sabia de muitos cristãos grisalhos que nunca tinham feito isso. Aos poucos, porém, através da oração e recebendo exortação de alguns irmãos, fui percebendo o fariseu que havia por trás daquele rosto cheio de espinhas.

A Bíblia é um livro revelador. Revela-nos quem Deus é, quem nós somos e quem nós deveríamos ser. Isso é humilhante e, ao mesmo tempo, fonte de esperança já que Deus graciosamente vem ao nosso encontro pra fazer de nós quem nós deveríamos ser. Portanto, o maior impacto que a Bíblia pode causar na vida de uma pessoa é mostrar suas mazelas e trazer cura para elas. Tem sido assim na minha vida e na de tantos estudantes com quem tenho convivido na ABUB.

Que dilemas os estudantes normalmente enfrentam em relação ao estudo da Bíblia?

O ambiente estudantil ainda exala o ideal iluminista que diz que a razão é a única ferramenta confiável pela qual devemos analisar a realidade. O “Penso, logo existo” de Descartes continua forte nos meios acadêmicos e, mais recentemente, tem se unido ao “Sinto, logo existo” da pós-modernidade. É impossível estudar a Bíblia com os colegas numa escola ou faculdade sem lidar com esses pressupostos filosóficos. Assim, o grande dilema para o estudante cristão de nossos dias é mostrar que a vida verdadeira e abundante da qual Jesus falou consiste no “Creio, logo existo” (Cf. João10:10; 11:25-26). A modernidade diz que o pensar define a existência real. A pós-modernidade, por sua vez, diz que o império dos sentidos estabelece a verdade. Os cristãos, no entanto, afirmam que vida real e plena só existe pra quem crê na Bíblia (Palavra escrita de Deus) e crê em Cristo (Palavra viva de Deus).

Crer é também pensar, mas não é só pensar. Crer certamente inclui sentir, mas não é apenas sentir. Jeremias comprou um campo em Anatote não por ser um negócio razoável a se fazer, mas porque creu na promessa de restauração que Deus havia feito (Cf. Jeremias 32). Asafe permaneceu vivendo de maneira íntegra por crer na futura justiça de Deus, apesar de seus sentimentos de inveja dos ímpios (Cf. Salmo 73).

O maior desafio para o cristão na escola e universidade é deixar que a fé (confiança) em Deus seja o árbitro diante das suas decisões. A nossa fé deve dirigir nossa razão e nossas emoções.

Como “iniciar o processo” de superação destes dilemas?

Oração sempre é um bom começo. Se a fé deve dirigir nossa caminhada, precisamos orar pedindo mais fé. Mas é necessário lembrar também que fé não é uma energia que Deus concede aos homens pra que estes façam as coisas acontecerem. Fé não é acreditar no poder de Deus, mas conhecer e confiar no Seu caráter.

Fé é sinônimo de confiança e confiamos em quem nós conhecemos. Portanto, crescer em fé é crescer em relacionamento com Deus. Daí a importância da oração, pois através da oração nos encontramos com Deus e falamos com ele. Através da Bíblia ele fala conosco. Nesse diálogo vamos conhecendo mais a Deus e seu caráter e isso nos capacita a confiar mais nele. É simples assim, mas difícil de praticar.

O papel da ABUB através dos seus assessores é ajudar cada estudante a desenvolver sua fé em Deus e viver a partir dela na escola e universidade. Isto significa ensiná-los e auxiliá-los na prática da oração e no estudo da Bíblia. Fazemos isso através do nosso exemplo de vida de oração e estudo bíblico (esta é a parte mais difícil - risos) e através dos nossos encontros de capacitação missionária.
   
Como tem sido a experiência da oficina “Como transformar seu EBI em uma exposição bíblica”? Qual o objetivo da oficina a curto e a longo prazo?

Tudo começou em fevereiro de 2009 quando participei do Encontro de Formação de Obreiros, um curso de preparação para o ministério pastoral entre estudantes oferecido pela CIEE (Comunidade Internacional de Estudantes Evangélicos). Neste encontro tive uma conversa muito marcante com Jorge Atiencia, obreiro equatoriano que tem servido os movimentos estudantis na América Latina há mais de 30 anos.

Na época eu havia sido admitido como obreiro da ABUB há pouco mais de um ano e pedi a Jorge que me desse alguns conselhos que me ajudassem a evitar erros em meu ministério com os estudantes. Ele me deu seis, mas o mais importante foi: “Ensine os estudantes a lerem a Bíblia. Este é o maior legado que se pode deixar. Você certamente cometerá erros no ministério, mas a Palavra nunca erra. Se você ensinar os estudantes a confiarem na Palavra eles sempre terão como acertar.”

Desde esta conversa tenho me dedicado ao estudo da Bíblia a fim de ser um bom expositor, mas também tenho tentado formar novos expositores bíblicos. Em 2010, montei a oficina “Como transformar seu EBI numa exposição bíblica” e tenho trabalhado com ela em alguns encontros como os IPLs 2011 e 2012.

Quero, ao mesmo tempo, ensinar os estudantes sobre a importância da pregação expositiva, ajudá-los a avaliarem as pregações que ouvem a fim de não “engolirem qualquer coisa” e despertar neles o desejo de serem bons expositores. Todos os estudantes que passam pela ABUB, se ainda não tiveram, terão oportunidades pra expor a Bíblia em alguma ocasião seja na escola, universidade, sua igreja local ou ambiente de trabalho. Quero que quando essa oportunidade chegar eles façam uma pregação bem feita.

Meu objetivo imediato com a oficina é dar condições pra que os estudantes consigam expor a Bíblia de forma fiel e contextualizada onde eles foram convidados. Sei que a longo prazo Deus pode chamar alguns deles pra serem expositores bíblicos regulares ao pastorearem uma igreja local, ao se tornarem professores de escola bíblica ou obreiros na ABUB ou outras organizações missionárias. Espero que esta oficina ajude também os que tiverem esse futuro vocacional.

Como tem sido a resposta dos estudantes a esta oficina?

Os estudantes têm mostrado bastante interesse no assunto e alguns já tiveram oportunidade de praticar o que aprenderam na oficina durante o período prático do IPL.

Tenho percebido também que a oficina tem ajudado os estudantes a produzirem seus EBI´s com mais cuidado já que tanto o trabalho de preparação de um EBI como o da exposição são idênticos. O que muda é que no EBI as perguntas de Observação, Interpretação e Aplicação (OIA) levam as pessoas ao entendimento do texto enquanto que na exposição o entendimento vem pela Explicação, Ilustração e Aplicação (EIA) feitas pelo(a) expositor(a).

Sei que esta oficina pode produzir nos estudantes uma postura extremamente crítica diante de cada sermão ouvido ao ponto de, muitas vezes, não ouvirem pregações buscando alimento espiritual, mas pra identificarem os erros e fazerem comparações entre os pregadores. Temo por isso e oro pra que Deus tenha misericórdia deles e de mim, pois corro o mesmo risco. Meu objetivo com a oficina não é formar “banco de jurados” para avaliarem os sermões de seus pastores, mas formar expositores que preguem a Palavra de Deus de maneira clara, profunda e aplicada de modo que os ouvintes do sermão sejam desafiados pelo Espírito Santo a responderem em arrependimento e fé em Cristo.

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