Entre nós

Chamados a servir

Entrevista com Tânia de Medeiros Wutzki, da Igreja Batista Filadélfia de Campinas.

Tânia é coordenadora de projetos da Federação das Entidades e Projetos Assistenciais da Convenção das Igrejas Batistas Independentes e Secretaria Executiva da Rede Evangélica Nacional de Ação Social (RENAS).

Ela é casada há 31 anos com Narcy Wutzki e mãe de três filhos jovens adultos - Hanna Camila , Nathalie Cristina e Vitor Felipe.

 

Como você descreve sua experiência de conversão?

Cresci em um lar evangélico e me converti em muitas programações, mas somente com 14 anos  entendi e, mais racionalmente, tomei minha decisão. Entendo que foi um processo e talvez a maior dificuldade que tive foi com a ênfase que se dava nas conversões onde as mudanças eram radicais. Para quem teve uma educação baseada nos valores cristãos esta mudança não era tão visível e parecia que por isso, minha experiência era “menor”.  Assim, entendi que Jesus morreu por mim da mesma forma, o preço foi o mesmo, sem considerações do quanto ou do tipo de pecado. O que faz a diferença é a graça, no mais, ao pé da cruz, somos todos iguais.

E sobre sua percepção de “reconhecer-se missionário”? Como ela foi estabelecida?

No final do ensino médio participei de um congresso de jovens e houve um apelo, um chamado para uma dedicação integral ao ministério. Senti e entendi que Deus tinha este plano para minha vida. Para ver se era isso mesmo, participei de uma Escola Bíblica para jovens e também de uma equipe que, no período de férias, visitava igrejas e trabalhava com jovens, crianças e adolescentes. No ano seguinte fui para o seminário em Campinas, cursei Bacharel em Teologia com especialização em educação cristã. Durante o seminário cursei também Pedagogia na Universidade de Campinas (Unicamp). Depois do seminário, casei e pastoreamos igrejas por 7 anos. Depois disso, e de volta a Campinas, discerni meu ministério e tenho me dedicado à área social.   

O que a Bíblia define como “diaconia/serviço”?

Entendo que tudo o que fizermos a partir do que somos e temos (dons, talentos, recursos, etc) é serviço a Deus. Percebo que durante um tempo, a igreja supervalorizou o chamado para o “ministério de tempo integral” e, na visão dicotômica, considerava-se secular outras áreas de atividade humana. Uma visão mais bíblica, e que vê em todas as profissões um chamado para servir, está presente hoje e precisa ser ensinada aos adolescentes e jovens.   

De que modo a ABUB  pode auxiliar os jovens cristãos na compreensão do serviço?

Penso que não basta o conceito bíblico ensinado, é importante para termos os princípios, mas a experiência de ser útil, servir com o que se  é e faz. A visão/convicção de que tudo o que fazemos pode ter a perspectiva do serviço a Deus e ao próximo deve ser a base já no período da escolha/definição da vocação e seguir como referência na formação e depois na atuação profissional. Isso pode ser parte do auxílio que a ABUB possa dar aos jovens.

Como a Igreja pode acolher “e animar” seus jovens ao serviço? Há alguma experiência para ilustrar? 

A igreja pode animar ensinando, acolhendo e oferecendo espaços onde os jovens  tenham a oportunidade de servir. É incrível como não sabemos o que outro faz, não sabemos os profissionais que estão ao nosso lado todo domingo, as competências que têm, os desafios que enfrentam na sua profissão. Ser espaço onde se socializa isso pode criar uma cultura diferente, onde a profissão, o trabalho, a vida inteira, faz parte da espiritualidade.

Participei de uma equipe que trabalhou com adolescentes e uma das atividades do semestre foi uma visita a um abrigo de crianças (acolhimento institucional), que ficava próximo a igreja. A avaliação pós-atividade mostrou como foi impactante para eles ao brincar, dar colo e atenção, sentindo-se importantes e úteis para aquelas crianças. Experiências assim desmistificam o serviço a Deus e ao próximo como algo que somente poucos possam fazer.

Quais conselhos você daria para um jovem que está na universidade e busca conciliar sua fé com sua profissão?

Sei que dependendo da igreja não é nada fácil este período. A igreja deve ser o espaço que acolhe as dúvidas, perguntas e inquietações desta época.

Se o pastor ou líder dos jovens não derem abertura para isso, penso que o jovem deva buscar um mentor que o acompanhe neste período.

A ABU tem sido este espaço para muitos - foi para mim e fez diferença. Quando fiz um semestre com Paulo Freire na Unicamp, na década de 80, entrei em crise pelo conteúdo cristão que percebia na fala e na pessoa dele. Não conseguia conciliar isso com os conceitos que tinha do que era ser cristão e muito menos das posições políticas que naquele contexto, eram irreconciliáveis. Um texto que Paul Freston me indicou para leitura sobre a graça comum, foi fundamental para que as coisas se acomodassem na minha mente e coração. Brinco que até hoje sou “caçadora” de sinais da graça comum, isso me fala muito de Deus, fortalece minha fé.  

Quais desafios a Igreja evangélica vive hoje em relação à “prática da fé”/ conexão entre o que vivemos dentro da Igreja  e fora dela?

Não estudo(ei) a fundo a história da igreja, mas me parece que vivemos no tempo em que esta conexão está muito fragilizada.   As demandas da sociedade, os problemas concretos das pessoas, com raras exceções, não estão na pauta da igreja. Focamos em assuntos que ocupam pouco tempo na Bíblia e tem pouca relação com a vida cotidiana e deixamos de lado o que poderia fazer dos discípulos de Jesus aqueles que “transtornam o mundo”, sendo uma igreja que acolhe, luta pela justiça e direitos - principalmente dos mais vulneráveis, sejam eles quem forem. Continuamos com  programas que são produtos de uma cultura e de um tempo, não são necessariamente bíblicos, mas os sacralizamos. Para não nos tornarmos guetos, ou clube social, será necessário o esforço de ouvir os de dentro, e no diálogo com a realidade que está “fora” buscarmos juntos os princípios bíblicos que podem trazer mais coerência para a nossa prática da fé.

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