Entre nós

Kehinde Ojo: uma só visão, muitas culturas

"Comunique a visão", é uma das várias falas do nigeriano Kehinde Ojo que ficaram marcadas depois do treinamento em mobilização de recursos que ele deu no Brasil, em setembro de 2018. Diretor de programa da área de desenvolvimento de apoio local da Comunidade Internacional de Estudantes Evangélicos (IFES, na sigla em inglês, da qual fazemos parte), ele veio treinar estudantes, obreiros e diretores da Aliança Bíblica Universitária do Brasil (ABUB) junto com Carmen Castillo, da equipe IFES América Latina.

Em sua função, Kehinde ajuda os movimentos nacionais da IFES a tornarem-se sustentáveis através da mobilização de recursos local, sem depender de aportes estrangeiros. "Conduzimos treinamentos e provemos mentoria para que os líderes dos movimentos nacionais apreciem os valores e ganhos da sustentabilidade local, desenvolvendo estratégias e capacidades para mobilizar os recursos por meio de um engajamento com as Escrituras", conta. Ele viaja por todo o mundo e lida com movimentos de diversos países e culturas. Na Assembleia Mundial 2019, ainda ministrou uma oficina com a ajuda do brasileiro Marcus Vinicius Matos, diretor secretário da ABUB.

Conversamos com Kehinde sobre o desafio de ensinar e aprender entre culturas, sobre o papel da IFES neste apoio e sua experiência na Assembleia Mundial. Confira:

Foto: acervo do Kehinde, no centro da foto em pé

ABUB: Como nigeriano, você viaja o mundo ensinando diferentes movimentos nacionais, de culturas muito diferentes da sua. Como você se prepara para estes momentos?
Kehinde Ojo: Ensinar a Palavra de Deus é um grande privilégio. A minha preparação começa com oração e pesquisa sobre algumas coisas da cultura que irei visitar: sua história, teologia e perspectivas. Além disso, qual é a experiência prévia deles em relação ao treinamento que providenciarei.

Como fazer a ponte entre diferentes culturas para que o ensino fique claro?
Um grande obstáculo ao ensino eficaz são as suposições! Então evito fazer suposições durante qualquer uma das minhas viagens entre culturas. Em vez disso, faço perguntas para saber e estar informado, o que me ajuda a me integrar em grande medida. Também aprendo as "palavras mágicas" na língua local do meu público [como "obrigado", "por favor" etc.]. Mais importante ainda, o estudo bíblico é feito sempre no idioma local enquanto eu uso um tradutor para acompanhar o ritmo da minha audiência. Em vez de ensiná-los o que sei, peço que eles me mostrem o que Deus lhes aponta através das Escrituras. Esta abordagem tem se provado muito eficaz para conectar com o público.

O que você já pode aprender com diferentes movimentos nacionais sobre a missão estudantil?
Uma questão importante que se destaca com respeito à missão estudantil [que aprendi] a partir das minhas visitas para muitos movimentos nacionais é paixão! O ministério estudantil é feito com paixão por meio das culturas. Estudantes, graduados e obreiros, todos estão comprometidos com a missão por meio de seu tempo, talento e tesouros. Em alguns casos, grandes sacrifícios são feitos só para garantir que o trabalho aconteça.

Se você pudesse deixar uma lição simples aos estudantes missionários brasileiros, qual seria?
Gostaria de encorajá-los a colocar Deus em primeiro lugar em tudo o que fazem. Colocar Deus em primeiro significa uma vida de oração contínua e estudo diligente das Escrituras. O mundo estudantil de hoje em dia é bombardeado com mídias sociais, o que coloca uma pressão enorme nos estudantes para que se adaptem. É nessa dependência em Deus, expressa em orações e estudos bíblicos diários, que nos liberta das pressões que encaramos no mundo estudantil.

Como a IFES apoia os movimentos nacionais e por que isso é importante na sua perspectiva?
A IFES o faz ao prover aos movimentos nacionais recursos e treinamentos que foram identificados como necessários, estabelecendo ministérios estudantis que possam ser sustentados por uma liderança e iniciativa local. Isso é importante porque nenhum movimento nacional tem particularmente tudo o que é necessário para a eficácia ministerial. Somos mais fortes por meio da parceria e da colaboração.

Os movimentos nacionais podem contribuir generosamente para a IFES através dos serviços que prestam a seus alunos e graduados. Ao destacar-se com excelência em seus ministérios nacionalmente, a IFES como um corpo global se torna mais forte e capaz de transferir princípios divinos desse movimento nacional para outros movimentos nacionais.

Na Assembleia Mundial deste ano você organizou uma oficina junto com um brasileiro. Por que você quis convidar o Marcus Vinicius para participar?
Romanos 12 nos conta que Deus em sua graça nos deu diferentes dons para fazer as certas coisas bem. Marcus, durante minha visita ao Brasil, demonstrou graça e capacidade na área de mobilização de recursos. Foi isso que me motivou a convidá-lo a compartilhar de seus aprendizados e experiências globalmente, o que, como mencionei antes, é uma das formas com que movimentos nacionais podem contribuir com a IFES.

Como você acha que diferentes culturas podem se unir para ensinar a outras, como vocês fizeram na Assembleia?
IFES nos dá um dos melhores exemplos de como diferentes culturas podem se unir para ensinar outras. Isso é expresso a cada quatro anos por meio da Assembleia Mundial da IFES. Isso também é expresso na equipe do programa de Desenvolvimento de Apoio Local, que é composta por irmãos e irmãs de diferentes partes do mundo. A melhor abordagem é regularmente reconhecer que nenhuma cultura tem tudo o que é preciso e todos temos algo a oferecer para o resto do mundo.

E o que temos a ganhar com isso?
Um grande ganho com essa colaboração é perspectiva. Com a experiência, aprendemos formas melhores de fazer as coisas, o que pode economizar muito tempo e dinheiro. Também dá a oportunidade para as pessoas usarem seus dons como uma maneira de abençoar os demais.

O tema da Assembleia Mundial deste ano teve a ver com esperança. Que mensagem de esperança você gostaria de deixar aos estudantes missionários? Como eles podem continuar sendo mensageiros de esperança, preenchidos de esperança, em tempos tão difíceis?
O apóstolo Paulo declarou inequivocamente nas epístolas que sem esperança, nós cristãos "somos os mais miseráveis". Mas graças a Deus, temos esperança em Cristo. Cristo é a esperança do mundo! "'A ele quis Deus dar a conhecer entre os gentios a gloriosa riqueza deste mistério, que é Cristo em vocês, a esperança da glória", Colossenses 1:27 (NVI). Gostaria de incentivar os estudantes missionários a manter viva a esperança, a nunca desistir.

Novamente, tomando emprestado a carta de Paulo para a igreja em Corinto, Paulo declarou que nossos problemas atuais são pequenos e não duram muito, então não olhamos para os problemas que podemos ver agora, mas "fixamos os olhos, não naquilo que se vê, mas no que não se vê, pois o que se vê é transitório, mas o que não se vê é eterno" (2 Coríntios 4:16-18, NVI) Minha leitura de Mateus 28:18-20 me lembra de três coisas. Em primeiro lugar, o "Grande Seguro": toda autoridade no céu e na terra foi dada a Cristo. Em segundo, a "Grande Comissão": o mandamento de Cristo é ir e entregar a mensagem, independentemente de como nos sentimos. E em terceiro, a "Grande Garantia", Cristo irá conosco.

Minha oração e desejo é que os estudantes missionários continuem sendo mensageiros de esperança no desafiador e difícil mundo em que agora vivemos.

 

Bônus: entrevista com Marcus Vinicius Matos

Depois do treinamento no Brasil, Marcus foi convidado a compartilhar na oficina da Assembleia Mundial 2019 com Kehinde. Lá na África do Sul, o diretor secretário da ABUB pode contar um pouco da sua experiência. Abaixo, fizemos duas perguntas para ele.

ABUB: Quando Kehinde lhe convidou a participar com ele da oficina, o que você pensou? O que o moveu a aceitar?
Marcus Vinicius Matos: Eu achei uma loucura total! Eu participei do treinamento sobre mobilização de recursos com ele ano passado, e desde então mantive contato. Até tenho alguma experiência em captação de recursos na universidade e em outros projetos, mas daí a liderar uma oficina no tema para estudantes, obreiros e membros de diretorias de dezenas de movimentos da IFES há uma distância… não me sentia preparado. Mas creio que o convite tem uma razão, e por isso aceitei. Para Kehinde e para a IFES hoje, mobilização de recursos tem menos a ver com técnicas de convencer as pessoas a doarem e mais com visão. Com nossa fé e sobre como a levamos a sério. E isso é um exercício que temos feito na Diretoria Nacional da ABUB, e que particularmente me motiva. É repensar o que fazemos e anunciar isso de forma clara para que as pessoas se motivem e se comprometam com o movimento. É pensar: a ABUB faz o quê? Serve pra quê? Eu aprendi desde estudante que fazemos "evangelização, formação e serviço". O desafio é definir como fazer isso hoje. Ao ter clareza, podemos convidar pessoas a doarem para o movimento, fazê-las entender que podem orar por nós e ser parte da mesma missão.

Como você acha que enquanto ABUB podemos contribuir com a formação de outros países, como aconteceu com sua participação na oficina? O que temos a ensinar?
Podemos contribuir de duas maneiras. Uma é compartilhado aquilo que sabemos e acreditamos. E esse partilhar de experiências é rico e abençoador tanto para quem ouve quanto para quem fala, porque quem fala é obrigado a refletir sobre sua própria experiência. Mas a segunda maneira é mais importante. É se engajar. É amar. Porque uma coisa é falar, outra é fazer. A ABUB é o único movimento da IFES em língua portuguesa que conta com publicações e tem uma editora. A demanda por formação nos outros países é enorme! Os livros que lemos para os eventos aqui não chegam lá. Temos uma demanda concreta para contribuir com a formação dessa turma toda! As expectativas do que podemos fazer, de como podemos contribuir com esses movimentos, dependem muito de onde está nosso coração na missão, da nossa visão. Foi nesse contexto de ser demandado a ajudar, a ensinar, que conheci Ramon Rocha, da Media Associate International. Ele lidera oficinas para editores e publicadores cristãos ligados à IFES e se comprometeu a nos ajudar a servir aos movimentos de Angola, Guiné Bissau, Moçambique, Portugal e Timor-Leste. Queremos e podemos contribuir com formação e literatura. Inclusive já fizemos isso antes, nas décadas de 60 e 70.

LEIA O ENTRE NÓS

  • Abertura: Os diretores Marcus Vinicius Matos e Raquel Bergária falam das palavras, dos encontros e da esperança que colheram na Assembleia Mundial 2019
  • Entrevista: Ziel Machado nos conta o que significa seu novo cargo de presidente honorário e como ele servirá à missão estudantil nos próximos anos.
  • Artigo: Mariana Diniz nos conta como foi participar enquanto estudante do Encontro de Estudantes prévio à Assembleia
  • Artigo: Marcio Lima relata a visão de um profissional e assessor auxiliar nessa jornada de fé, encontros multiculturais e uma só esperança
  • Reportagem: Uma obreira, um estudante e uma profissional trazem ideias de volta para o Brasil
  • Reportagem: Que aprendizados e encorajamentos ficaram para os participantes de outros países na Assembleia Mundial?

 

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