Entre nós

40 anos de alcance e testemunho

Sandra, Lucinha, Alex, Carla, Roberto, Jucelania, Jaqueline, Marcos. Os nomes de pessoas que conheceram a Cristo por meio da Aliança Bíblica Universitária (ABU) de Seropédica (RJ) vêm fácil à mente dos participantes de diversas épocas. O grupo, que recentemente completou 40 anos de história, atua na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e é conhecido como ABU Rural.

Ao longo de sua trajetória, ele se envolveu em diversos projetos que impactaram seu contexto, além da vida de muitas pessoas. O lema abeuense "estudante alcançando estudante" somou-se à máxima “amizade que dá força, fé que sustenta”, e geração após geração o grupo multiplica sua atuação e serve de exemplo de alcance, serviço e perseverança.

É a história de Laura Araujo, estudante de farmácia da UFRRJ. Ela nasceu em berço evangélico, mas conta que, ao entrar na universidade, se deslumbrou com a falsa liberdade. "Deixei-me ser influenciada pelas pessoas e eu mesma não era uma verdadeira influência naqueles lugares [que frequentava]", lembra.

"Aos poucos, com o agir do Espírito Santo, comecei a ser mais ativa nos movimentos cristãos. Conheci a ABU e isso me ajudou de várias formas: comecei a ver a importância da leitura bíblica, do estudo bíblico, a conhecer verdadeiramente quem é Jesus, quem eu sou e a ver o evangelho exatamente da forma que ele é. A minha antiga igreja local me ajudou muito também, tirando dúvidas de 'nova convertida'... Aos poucos fui vendo que algumas atitudes minhas não estavam de acordo com aquilo que eu me denominava ser."

Laura relata que ninguém lhe julgou, mas a acolheram. Ela é grata aos abeuenses que deixaram marcas eternas na sua vida, "marcas de transformação de uma pessoa que achava que estava tudo bem e que não tinha problema nenhum em fazer o que estava fazendo, e finalmente começou a perceber que estava tudo errado e que precisava, sim, de uma transformação!" Para Laura, a ABU foi o meio usado por Deus para revelar sua bondade, perdão, graça e misericórdia.

40 anos de transformações

O grupo da ABU Rural surgiu oficialmente em 1978. Claudio Vital, na época professor da faculdade, diz que as sementes do movimento surgiram por volta de 1976. "Quando entrei na ABU, não era estudante, era funcionário. Convidávamos pastores de Campo Grande para compartilhar, outros preletores de calibre", explica. Hoje aposentado, Claudio aponta que a veia evangelística já estava naqueles anos, quando os estudantes usavam folhetos para evangelizar.

Aloizio Lunga, graduado em economia e hoje professor na UFRRJ, entrou no segundo semestre de 1978. Ele não era tão assíduo na ABU porque morava em Seropédica e não no alojamento, mas foi atraído para o grupo pelas músicas. Gostava de conhecer as que não eram cantadas em sua igreja. Os encontros, segundo Aloizio, eram mais de estudo bíblico, mas mesmo assim se lembra de visitantes que conheceram a Cristo. "O pessoal [alcançava a universidade] organizando alguns eventos diferentes, convidando até grupos musicais", diz. Mas era o testemunho de suas vidas que impactava os colegas:

"Um dos rapazes que foi responsável pelo grupo, José Miguel, tinha uma característica interessante e as pessoas o reconheciam por isso: o rapaz da ABU era um cara que andava com um chinelo de cor diferente em cada pé. [...] [Em sua peculiaridade, ele se tornou conhecido e] pode testemunhar para outros que com certeza não eram evangélicos. As pessoas viam que os evangélicos tinham vida diferente."

Aloizio diz que os anos na ABU lhe ensinaram a não separar as pessoas. Criado numa igreja que não via com bons olhos outras denominações, o convívio ampliou sua noção de comunidade cristã. "Essas [tradições fechadas] foram ficando pelo caminho por causa do conhecimento das outras igrejas. Quando fui ao grupo, me senti muito bem, porque tinha pessoas dos mais diversos matizes e não me senti um peixe fora d'água."

Quando Josimar Gonçalves dos Santos entrou na UFRRJ em 1994, o grupo estava bem maior e mais atuante, conseguindo com facilidade os auditórios emprestados. Hoje professor de biologia e criador de galinhas, Josimar graduou-se em zootecnia e licenciatura em ciências agrícolas, ficando na Rural até 2000. Quando ingressou na universidade, logo buscou o grupo. "A Rural tinha uma fama não muito boa. As pessoas falavam de uso de droga, prostituição. E isso me preocupava, era uma realidade que eu nunca tinha vivido. Então quando cheguei e encontrei um grupo que tinha estudantes evangélicos e fui muito bem recebido foi pra mim uma salvação", relata sobre como se sentia seguro dos trotes enquanto calouro ("bixo", como chamam lá). "Posso falar sem medo nenhum que foi a melhor experiência da minha vida, tanto na estudantil quanto na espiritual."

Josimar diz que é fácil se lembrar das conversões e dos visitantes não cristãos, pois isso impactou sua vida pessoal. "Uma colega minha de ABU dividia o quarto com Anna Cássia, hoje minha esposa e na época não cristã. Ela se converteu no quarto e na ABU foi onde ela trilhou os primeiros passos no evangelho", relata. "Por isso falar da ABU é mais do que só uma participação. A ABU mudou minha vida por completo. Hoje, o que eu tenho, minha esposa e meus filhos, meus amigos, 90% talvez são amizades que fizemos na ABU." A prova é esta foto do seu casamento, para o qual foram 80 abeuenses com um ônibus emprestado pela universidade!

Além disso, Josimar diz que a ABU lhe ensinou um evangelho e um evangelismo simples. "A questão do evangelho pessoal, do dia a dia, de sentar junto, comer junto, conversar. [Aprendi na ABU] uma forma de compartilhar o evangelho muito diferente. Essa forma de evangelizar me encantou."

"Uma colega de curso se dizia ateia. Mas a convidávamos e ela frequentava a ABU. Formada, uns dois anos depois, ela me liga e diz que tem um convite para me fazer. Era o batismo dela. Foi a coisa mais forte que vivi. Ela gostava de estar junto conosco, dizia que não a atacávamos, recebíamos bem. E após a universidade, sentiu necessidade e foi procurar uma igreja. E aí se encontrou e se converteu."

Josimar também relata como os professores e até os reitores frequentavam a reunião. Foi em sua época também, encorajados por um capelão, que começaram a realizar a recepção dos calouros.

Já Nilsa de Oliveira foi estudar economia doméstica na UFRRJ em 2000. Hoje trabalhando no movimento nacional como secretária de formação na ABUB, ela participou do grupo até 2005, e de seus colegas da época, alguns são seus doadores até hoje. Em seu primeiro ano, apesar de convidada, Nilsa não quis participar. No ano seguinte, ela tirou uma nota vermelha e ficou triste. Sua mãe lhe aconselhou: "Filha, ora mais, estuda mais, procura gente para lhe ajudar". No mesmo dia, ela foi para a reunião da ABU.

"Quando cheguei, vi que tinha muita gente que eu conhecia. Fui tão bem recebida. Fiquei muito impactada com o estudo bíblico indutivo, achei o máximo. Quando terminou, ninguém me deixou ir embora, queriam saber quem eu era. Lembro que os motivos de oração eram sempre de matéria difícil, fiquei impressionada que o pessoal tinha dificuldades igual a mim. E oraram por mim", lembra. O acolhimento fez com que Nilsa ficasse.

Nos anos seguinte, o grupo recebeu os primeiros intercambistas da parceria da ABUB com a NKSS Noruega, que ficaram na região Leste e iam para a Rural. O segundo trio também ficou lá. O grupo se envolvia cada vez em mais atividades, como o café da manhã para os estudantes em todo início de período, com música e evangelismo, e com a Semana da Esperança, nos moldes do projeto criado pela ABU Viçosa (MG), cinco dias de atividades que abordam a depressão no meio universitário.

Por cerca de três anos a ABU Rural organizou uma vigília evangelística bem grande, a Jesus Night (foto acima). O evento, bem como outras atividades do grupo, tinham total apoio da universidade. "Tinha estudante que vinha da festa, duas ou três horas da manhã, e parava lá e assistia a vigília até o fim para tomar café da manhã conosco", conta Nilsa. O grupo convidava preletores, como Ziel Machado, ex-secretário geral da ABUB. Dessa vez, a vigília chegou a ter 300 pessoas e lotou a sala de estudos da universidade.

"Sempre tínhamos dois expositores da noite, no meio tempo tinha equipe de louvor, peças, sarau, testemunhos. No meio da noite parávamos para o lanche, e era o momento em que o pessoal da ABU se aproximava das pessoas para bater papo. Sempre nos apresentávamos como pessoas que eles podiam procurar em outros momentos, podiam contar conosco, com nossa oração e amizade."

Assim como os demais, Leticia Araújo Teixeira, estudante de engenharia de agrimensura e cartográfica na UFRRJ desde 2014, comenta que uma das formas que ela vê Deus usando o grupo é por meio da amizade. "Ao entrar na universidade achamos que estamos sozinhos e que ninguém nos entenderá, os cristãos, mas ao depararmos com um grupo que busca a Cristo e entende que seu campo missionário é a universidade, isso dá ânimo e forças para continuar", ela conta.

"Creio também que Deus tem nos usado para mudar os rótulos que os cristãos hoje recebem. Através de nossas ações temos levado o amor, respeito, compaixão que Cristo nos ensina e consequente desconstruindo esses títulos falsos. Também na oportunidade de anunciar o verdadeiro evangelho, amor, misericórdia e graça de Jesus."


Mas o que faz o grupo persistir tão forte ao longo destes 40 anos, só crescendo em impacto? Para Nilsa e Josimar, um dos aspectos é a característica própria da UFRRJ: muitas pessoas vêm de longe e moram no alojamento da universidade, convivendo constantemente e criando laços profundos de amizade. Além disso, muitos cursos são integrais, os estudantes passam tempo juntos.

Mas não é só isso. Nilsa lembra que todo mundo era envolvido: "O trabalho sempre foi coletivo, todo mundo tinha uma participação, então aprendíamos as coisas". Em entrevista ao site da ABUB no início deste ano, o ex-coordenador Esdras de Souza contou que aprendeu que a transição de liderança "seria um processo que envolveria não só quatro pessoas, mas todo um grupo".

Além disso, há o acompanhamento assíduo dos líderes anteriores e dos abeuenses formados. "Quando entrei na diretoria do grupo, as meninas que saíram ficaram um pouquinho. Uma delas se formou, passou no mestrado, mas fazia questão de voltar às vezes. Quando não sabíamos o que fazer, tínhamos para quem perguntar,", explica Nilsa.

Mais de 15 anos depois, é a mesma estratégia que Esdras compartilhou na entrevista à ABUB: "Entendemos que passar o bastão é um processo que envolve dedicação. [...] Seria necessário que ainda tivéssemos um tempo na universidade para acompanhar os novos [coordenadores], passando para eles tudo o que aprendemos, resolvendo suas dúvidas e os incentivando com palavras de bom ânimo".

Josimar, por sua vez, conta como os formandos procuram manter contato com o grupo e dar apoio no que for necessário. "Jaqueline, que se converteu na ABU, sempre ia lá e falava que o grupo estava forte, estava legal. Há cinco anos, Rodrigo, um primo que é como se fosse sobrinho para mim, entrou na Rural. Ele me ligou e disse: ‘Tenho de ir para a universidade hoje porque vai começar a aula. Como é que faço?' Fui encaminhando ele até chegar na sala da ABU. Falei: 'Na minha época, nesse horário sempre teria gente aí. A porta está aberta?' Ele falou que sim. 'Então entra e se encontra, aí você já está em casa'."

Por intermédio de Rodrigo, Josimar passou a ter atualizações constantes da ABU Seropédica. Ele está, junto com Nilsa, num grupo de WhatsApp de abeuenses da Rural das décadas de 70 a 2000, e seguem apoiando os atuais estudantes.

"Isso ajuda o grupo a não se perder", comenta Nilsa. "Sempre tem alguém com quem você pode contar, para quem você pode perguntar. Esse é o grande diferencial. Essa presença, essa participação constante. É uma amizade que se desenvolve rápido e de maneira profunda entre os participantes. A amizade que nutrem diariamente dá força pra continuar, e a fé que experimentam juntos e que compartilham que sustenta também esse ministério há tanto tempo", diz relembrando o mote.

O sonho da sala própria

Em uma das conversas entre Josimar e seu primo Rodrigo, este enviou a foto acima, de um encontro que lotou a sala utilizada exclusivamente pela ABU dentro da UFRRJ. A universidade cedeu há anos o espaço, que estava com quase 100 pessoas naquele dia. Josimar foi positivamente incomodado: "Falei: 'Compramos 70 cadeiras e não cabe. Vou propor no grupo de WhatsApp para comprarmos cadeiras para vocês, porque o pessoal está sentado no chão!'".

Rodrigo conversou com os estudantes, que propuseram outro investimento: uma reforma. "Levantamos uma campanha e rapidamente conseguimos dinheiro para reformar a sala toda. [Os estudantes atuais] fizeram almofadas, móveis com reaproveitamento. A sala está bonita, reformada. Não tem dinheiro que pague", compartilha Josimar.

Na salinha pós-reforma há uma biblioteca com instrumentos como violão, cajon e teclado; mesa; Bíblias; cadeiras; quadro; estante onde guardam materiais; entre outros. "A salinha facilita na hora de nossas reuniões tanto de estudo bíblico indutivo quanto de diretoria. Facilita também na organização de eventos, além de promover um ambiente de acolhimento, conversas, aprendizagem e crescimento", explica o grupo contemporâneo.

Assim como a maioria dos grupos do país, por dez anos a ABU Seropédica se reunia em espaços abertos da universidade ou em salas cedidas pontualmente. Aloizio conta que as primeiras reuniões ocorriam na escadaria do Instituto de Zootecnia, e depois a amizade com um guarda abriu a possibilidade de usarem uma sala de aula. "Ficamos lá uma temporada e depois Claudio Vital, que era professor da instituição e trabalhava na biblioteca, arrumou o contato do porteiro do prédio principal, que arrumou uma sala lá dentro", conta Aloizio, que lembra a vez que este porteiro pediu aos estudantes para visitar seu filho enfermo e orar por ele.

Josimar chegou na Rural quando o grupo da ABU tinha acabado de conquistar a sala própria, desde então usada apenas pelo movimento estudantil. O professor de biologia conta que a sala foi "doada pela universidade para os nossos encontros provavelmente em 1987. O decanato (hoje pró-reitoria) conhecia o grupo e doou o espaço. É um lugar estratégico, próximo aos alojamentos e ao restaurante universitário, o bandejão. Na hora do almoço, as pessoas se concentram no bandejão e depois vão para os quartos escovar os dentes. Os encontros aconteciam todos os dias na hora do almoço, com reuniões de oração e uma palavra rápida. As reuniões mais extensas aconteciam nas quartas à noite. Na parte do dia, pessoas que não moravam no alojamento tinham a possibilidade de participar. Mas como muitos moravam lá, na noite da quarta-feira participavam de forma mais tranquila".

O espaço exclusivo ajudou o grupo a alcançar mais pessoas, de tal forma que, na época de Nilsa, em 2002, já não dava mais conta. Quando descobriram que a sala ao lado da ABU era do diretório acadêmico de economia doméstica, do qual Nilsa fazia parte, as coordenadoras do grupo, Erika e Rute Quélvia, sugeriram pedir a sala. O instituto deles era longe e por isso não a ocupavam. "As reuniões davam 80 pessoas e não cabia mais. A pedido das coordenadoras, levei [a sugestão de ceder a sala] para o diretório, expliquei que fazia parte das duas coisas e o que era a ABU. Lembro que o pessoal era tranquilo e falou que tudo bem, que iam tentar conseguir outra sala mais próxima para usarem", disse Nilsa.

Com a concordância do diretório, as coordenadoras fizeram um projeto explicando a importância do grupo dentro da universidade e como era importante aumentar o espaço e apresentaram à universidade, que ajudou na reforma para juntar as salas. Josimar conta que foram usados nisso os recursos restantes do Didaquê, um projeto que foi exemplo de como a ABU servia e abençoava a universidade e a outros.

Pessoal participa da reforma da salinha

Didaquê e outros exemplos de serviço

Didaquê foi o nome que os abeuenses escolheram para o cursinho pré-vestibular comunitário da UFRRJ, pelo qual eram responsáveis. O projeto foi apoiado pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), quando em 2002 assinaram um acordo de cooperação e receberam financiamento da organização por dois anos. "Atendemos quase 500 alunos usando o Instituto de Matemática pra ter essas aulas a mais", conta Josimar.

Pessoas faziam fila bem cedo para inscrições no projeto, que abriam à noite

Envolvidos na coordenação do curso até depois de graduado, ele conta que a ideia inicial não foi dos abeuenses. "Em 1997, o decano de extensão pediu para chamarem os líderes dos grupos da universidade, como a ABU, a pastoral universitária, o grupo de tradições nordestinas etc. Eu era o líder da ABU e eu fui nessa reunião. Ele falou: 'A universidade tem alguns projetos de extensão, nós não estamos conseguindo trabalhar com todos eles, mas eu gostaria que funcionassem. Como vocês são representantes de grupos de estudantes, e os grupos são vinculados à universidade, gostaria que cada um assumisse um trabalho e fizesse acontecer'."

Ao dividir os projetos, o decano passou para a ABU a responsabilidade de cuidar de um curso de reforço para os filhos dos funcionários da universidade. O grupo começou a se reunir para planejar o projeto. "Elaboramos um projeto de pré-vestibular comunitário, com o objetivo de dar a oportunidade dessas pessoas entrarem, por exemplo, na própria Rural. Quando fui com essa proposta [para o decano], ele se espantou com o tamanho do projeto e ficou muito feliz."

Foi dada a largada no Didaquê em 1998, já com 120 alunos nas salas do Instituto de Educação à noite, aulas de segunda à sexta e simulados aos sábados. "Começamos com nada e fomos pensando em tudo", explica Josimar. "Como é que íamos fazer para as outras disciplinas que não tínhamos [curso de graduação] na Rural? Procuramos o decano que ofereceu bolsas de extensão para os alunos que seriam professores." Aos poucos, o curso se estruturava e, em 1999, das 160 vagas iniciais foram abertas 260.

A grande procura não era só dos alunos, mas também dos professores. O grupo teve de criar um processo de seleção, com editais e avaliação. "Havia mais candidatos do que precisávamos. Eram 17 professores." Os frutos foram aparecendo. Por volta do ano 2000, o primeiro aprovado em economia foi aluno do Didaquê.

Com o crescimento, o decano chamou a ABU Rural e disse que não podia arcar com todas as bolsas dadas aos professores, e sugeriu que cobrassem uma taxa pequena para custear as despesas. Josimar lembra:

"Ele disse: 'O dinheiro que sobrar, se sobrar, fica com o grupo de vocês'. No fim do ano, então, o dinheiro que sobrava era vertido para a ABU. No segundo ou terceiro ano, usamos o dinheiro para reformar nossa sala toda, que estava muito ruim. Compramos 70 cadeiras, que não tínhamos, e conseguimos ajudar as pessoas a irem para treinamentos regionais e nacionais da ABUB."

Ex-alunos do Didaquê que entraram na universidade voltam para contar história

Assim a sala foi aumentada, abençoando as próximas gerações. Mas o impacto do serviço do grupo nos alunos do Didaquê foi além. "Tínhamos oportunidade de evangelizá-los", conta Josimar. "Quando entravam na universidade, em gratidão à ABU, participavam do grupo e alguns viraram coordenadores do Didaquê."

Os reflexos de coordenar o projeto talharam na vida de Josimar um caráter relacional, que ele usa até hoje no seu dia a dia profissional.

"No Didaquê eu não era professor. Tratava da questão administrativa, mas muitas vezes chegavam pessoas para conversar. Pessoas muito difíceis, com a vida muito destruída, e ficávamos conversando. Hoje não consigo desvincular isso da minha vida profissional. Na escola onde trabalho, o meu superior sempre me chama para resolver uma questão de um aluno na conversa. Eu aprendi lá a olhar para as pessoas com outro olhar. Não de superioridade, mas aproveitar a oportunidade para estar junto dos adolescentes, evangelizar quando posso, mas quando não, ajudando mesmo."

Após nove anos, o novo reitor não achou bom manter o projeto sob a coordenação de estudantes. Mas o Didaquê já tinha aberto a porta para alguns alcançarem o ensino superior e servido como exemplo de serviço para muitos.

Para além do Didaquê, serviço à comunidade é uma das marcas do grupo da ABU Seropédica. Nilsa contou no texto de abertura deste Entre Nós como o grupo de sua época serviu aos estudantes que não tinham como voltar para suas casas e ficavam no alojamento durante as greves. "Não podíamos apenas fazer parte da turma dos insatisfeitos, então fomos lá e fizemos algo", ela escreve no texto. Em entrevista, ela compartilhou como o grupo se unia a outros para servir aos estudantes:

"Teve aquele período da década de 2000 que teve várias greves, uma atrás da outra. Nessa época, começamos a abrir o bandejão. Ele fechava, e o pessoal que morava lá passava muita dificuldade, até fome. [...] Na greve anterior, fizemos outra atividade. Reunimos com o [movimento de oração de mães] Desperta Débora e a capelania da universidade. Fazíamos pequenas cestas básicas e uma vez a cada quinze dias reuníamos o pessoal numa salinha, colocávamos filme para assistirem e no final distribuímos as cestas básicas. Fizemos isso durante uma greve inteira."

O espírito de serviço é uma das marcas do grupo atual. A alimentação dos estudantes alojados na universidade continua sendo um problema. Recentemente, o grupo se mobilizou para providenciar uma refeição. "Tivemos a oportunidade de, além de servir o alimento, conversar com algumas pessoas, ouvir o que tinham a dizer e falar de Cristo", disse o grupo em relatório à ABUB. O grupo também alcançou os servidores da universidade num lindo gesto de gratidão: "Na Páscoa e no Natal, distribuímos bombons para os funcionários do restaurante universitário" (foto abaixo). Uma materialização do engajamento com a universidade.

Para tocar seus colegas em meio à dor (leia artigo sobre o assunto neste Entre Nós), no fim de período, o grupo distribui pela universidade frases de incentivo contra o estresse. "O impacto dessas frases foi muito legal", contam. "Tivemos relatos de como alguns precisavam ler aquilo ou como aquilo mudou o dia da pessoa." Outra preocupação é com a campanha de prevenção ao suicídio, Setembro Amarelo. "[Em 2017,] oferecemos vários serviços gratuitos, como corte de cabelo, unha, sobrancelha, roda de conversa com psiquiatra e psicólogo."

A semente do Didaquê, de alcançar os que estão fora da universidade, brota hoje em dois projetos. Um deles é o "Posso Ser Universitário Sim", chamado de POSSUS. Nele, os estudantes atuais vão em escolas e igrejas incentivar as pessoas a entrarem na universidade, explicando como é o processo, contando das bolsas e todos os detalhes. O grupo também atua no projeto nacional ABU no Enem (leia mais sobre esta iniciativa em artigo deste Entre Nós).

Dentre tantas atividades e histórias dos últimos 40 anos, Leticia compartilha o que aprendeu:

"Tenho aprendido que meu campo missionário é onde eu estou, onde Deus me colocou. Eu não sou dona da missão, sou apenas convidada pelo Pai a fazer parte dela, e que honra isso é. Tenho aprendido que tudo tem a ver com Cristo, não tem com o que sei, o quanto me capacito, ou quanto me esforço, tem tudo a ver com Cristo. Eu só posso fazer algo nele, sozinha nada posso fazer. Hoje compreendo que o que importa não é quantas pessoas eu evangelizei, mas se de fato investi tempo de qualidade em anunciar Cristo com cada uma delas."

O testemunho da universitária é a prova de como, geração após geração, o movimento missionário estudantil da ABU Rural continua transformando a universidade com o amor de Cristo. Transformação que se dá não apenas com a apresentação verbal do evangelho, mas por meio da amizade e do serviço aos colegas e demais pessoas ao redor.

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