Entre nós

Universidade além do diploma

É comum entrarmos na universidade focados no diploma, na carreira, na nossa vida futura. Mas os anos dentro do ambiente acadêmico ganham outro sentido quando o estudante percebe-se chamado por Deus para amar, servir e alcançar este universo. Esta é a visão da Aliança Bíblica Universitária do Brasil (ABUB): que os estudantes são missionários onde estão e, por isso, devem conhecer e envolver-se com a universidade em seus vários aspectos, alcançando-a por completo.

Foi o que Marcelo Dutra, engenheiro químico e assessor auxiliar da região São Paulo e Mato Grosso do Sul, aprendeu no seu tempo enquanto estudante. "A ABUB me fez perceber que eu não estava na universidade só para ganhar um diploma, mas para me envolver com as diferentes esferas que a universidade oferecia. E não só na questão de estarmos lá para compartilhar sobre Jesus com as pessoas, mas também encarnar e poder viver o evangelho nesses diferentes espaços. Desses, a pesquisa acadêmica foi a que mais me chamou atenção e acabei me envolvendo mais", compartilha Dutra, que também fez mestrado.

Alcançar todo o universo acadêmico é o objetivo do Engajamento com a Universidade, uma das áreas de foco da Comunidade Internacional de Estudantes Evangélicos (IFES, na sigla em inglês), à qual somos associados. Para engajar-se com este espaço, é importante alcançar não apenas os estudantes de graduação, mas também os da pós, os pesquisadores, docentes, administradores e funcionários. Enquanto muitos cristãos têm receio de se envolver com este universo, Vinoth Ramachandra, secretário da IFES para diálogo e engajamento social (e uma das pessoas que encorajou Marcelo Dutra a seguir na área de pesquisa acadêmica), afirma no site da área que:

“Cristo já está no campus – nas fronteiras das pesquisas, nas salas de seminários, nos laboratórios, na biblioteca – onde a verdade esteja sendo descoberta, onde houver avanços na justiça, onde a beleza estiver sendo criada.”

Dessa forma, resta aos cristãos apontarem para Jesus nestes espaços, revelando a verdade, o amor e a justiça que muitos ainda não veem por completo. Como seria a universidade se levássemos o caráter cristão e os entendimentos bíblicos às disciplinas, conversas e pesquisas? Como poderíamos transformar o espaço acadêmico levantando valores de justiça e fazendo das instituições mais humanas?

“Finalmente, irmãos, tudo o que for verdadeiro, tudo o que for nobre, tudo o que for correto, tudo o que for puro, tudo o que for amável, tudo o que for de boa fama, se houver algo de excelente ou digno de louvor, pensem nessas coisas. Ponham em prática tudo o que vocês aprenderam, receberam, ouviram e viram em mim. E o Deus da paz estará com vocês.” Filipenses 4:8-9 (NVI)

Grandes questões

Dentro da área de Engajamento com a Universidade, a IFES lançou um projeto especial nomeado em inglês de “Big Issues” (grandes questões, em português). O projeto visa ajudar estudantes e docentes a integrar sua vida cristã e acadêmica e engajar-se com toda a universidade. A iniciativa é liderada pelo professor Ross McKenzie, físico australiano e docente na Universidade de Queensland.

Timothée Joset, obreiro da GBEU Suíça (movimento semelhante à ABUB) e cofacilitador do projeto, nos escreveu contando que o projeto já está terminando. "O que basicamente fizemos foi conduzir cinco consultas regionais que apontaram algumas das tendências atuais dentro da IFES, mas também algumas diferenças regionais. Além disso, conduzimos uma pesquisa online com toda IFES."

O projeto pesquisou e avaliou como os estudantes e docentes já engajam-se com a universidade em diferentes partes do mundo, para levantar assim também quais recursos são vistos como necessários em cada realidade. "Os materiais resultantes até agora são o site bigissues.ifesworld.org, assim como o curso online Introdução ao Engajamento com a Universidade (mais informações em www.ifesworld.org/etu), que está atualmente acontecendo com aproximadamente 180 participantes de 60 países em francês, espanhol e inglês", explica Joset.

Em texto publicado pela IFES, McKenzie afirma que “ao longo da história, as universidades têm sido os lugares nos quais as pessoas se envolvem com grandes questões: do significado da vida aos meios do florescimento humano. Vidas, visões de mundo e culturas são moldadas pelas conversas que ocorrem na universidade”. Sobre o projeto, ele disse que “busca ajudar os alunos a pensar em como levar um coração e uma mente cristãos à universidade, como inspirar conversas cristãs em todo o mundo acadêmico e servir melhor à comunidade acadêmica”.

Nas primeiras consultas, foram levantadas diversas questões, muitas das quais nos lembram o contexto brasileiro. No Sul da Ásia, por exemplo, observou-se que os cursos de engenharia e medicina são idealizados e privilegiados, além de que há falta de senso de comunidade por causa do ensino à distância e dos estudantes que moram longe de onde estudam.

Já nos países africanos de língua inglesa e portuguesa, foram levantadas perguntas sobre como relacionar-se com pessoas de outra fé e como pode uma universidade funcionar com tão poucos recursos. Por fim, na consulta do Pacífico Sul observou-se questões como o objetivo da universidade e da educação (é um negócio? é só para viabilizar salários maiores aos formados?), além de apontarem problemas como a pobreza entre os estudantes, que complica até mesmo suas participações nos treinamentos do movimento.

Joset nos contou que percebeu pelas consultas preocupações de natureza socioeconômica (pobreza, corrupção, violência, greves, conflitos etc.) em regiões em desenvolvimento ("majority world"), enquanto regiões desenvolvidas ("west") apontaram questões filosóficas (ateísmo, ciência versus religião, significado da vida etc.), além de moralidade pessoal (sexualidade, gênero, saúde mental). Na realidade brasileira, percebe-se por meio dos abeuenses que encontramos todas essas questões.

"Uma pergunta comum era: 'Qual é o propósito da universidade?' Muitos estão preocupados que a mercantilização global das universidades significa que valores tradicionais de erudição, curiosidade, virtude, colegialidade e rigor intelectual foram perdidos. A educação e pesquisa universitária tem se tornado puramente utilitária com fins comerciais e profissionais."

Em relatório preliminar de maio de 2018, o projeto relatou que, dentre os pesquisados online, 25% identificou-se como não muito envolvido na vida e na comunidade da universidade, departamento, escola ou corpo docente; e 25% como envolvido com uma parte, mas não com o todo da universidade. Ou seja, 50% não são envolvidos plenamente na universidade.

Ao contrário da ideia de que para engajar-se na universidade é necessário envolver-se com pesquisa ou diretórios acadêmicos, Joset nos encoraja a pensar amplamente o chamado: "A questão não é se nos engajamos [ou não] com a universidade, mas como: é se eu, como estudante, simplesmente deixo minha mente e minhas emoções serem moldadas de forma acrítica pelo que é ensinado ou se estou me engajando em avaliar criticamente o que está acontecendo a partir da perspectiva cristã (entre outros textos, veja Romanos 12:2)."

Joset também fala que devemos lembrar do mandamento de amar ao próximo. "O que Deus pensa e sente sobre as pessoas florescendo e lutando nos campi? Quais são as suas necessidades percebidas, sentidas e reais? Que perguntas que elas realmente fazem?"

"A importância dos cristãos estarem presente em todas as áreas da universidade é que viver de maneira integral o evangelho", comenta o assessor auxiliar da ABUB Marcelo Dutra. Para ele, é importante não restringir o envolvimento, mas cada um buscar estar no espaço em que tem um dom. "Incomoda-me que às vezes podemos fazer este chamado, para que os cristãos se envolvam em todas as áreas da universidade, e as pessoas ficarem com um peso. 'Ah, porque já faço iniciação científica, tenho também de fazer parte da atlética, de debates de questões sociais?' Eu acho que devemos motivar as pessoas para que encontrem a vocação delas e em qual área da universidade precisam se envolver."

Agora na segunda fase, o projeto Big Issues construirá recursos de capacitação (sejam humanos ou materiais) para a área de Engajamento com a Universidade, a partir das questões levantadas nas consultas e pesquisa, explica Joset. Se tudo de certo, os resultados podem ser apresentados oficialmente na próxima Assembleia Mundial da IFES, que ocorrerá em 2019, na África do Sul.

“As armas com as quais lutamos não são humanas; ao contrário, são poderosas em Deus para destruir fortalezas. Destruímos argumentos e toda pretensão que se levanta contra o conhecimento de Deus e levamos cativo todo pensamento, para torná-lo obediente a Cristo.” - 2 Coríntios 10:4-5

 

  • Leia outros textos deste Entre Nós que abordam esta mesma temática do engajamento com a universidade! Na reportagem sobre a ABU Seropédica (RJ), vemos diversas maneiras com que os estudantes alcançam aos docentes e funcionários e se envolvem na universidade profundamente.
  • Na entrevista com Timóteo e Estéfani, uma das grandes questões do universo estudantil e da sociedade brasileira, a negritude e o racismo, é abordada de forma criativa e na perspectiva cristã.
  • Já no artigo sobre a ABU no ENEM, Bárbara nos conta como ela vê o projeto como uma resposta à ideia da redenção e às questões dos vestibulandos.

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