Entre nós

ABU e Igreja Local

Sarah Nigri de Angelis
Secretária Geral da ABUB

Há alguns anos atrás eu participava  de um treinamento da ABU quando um estudante me perguntou: “Por que eu devo continuar frequentando a igreja? No ministério estudantil eu também aprendo com os meus irmãos e irmãs, desfruto de comunhão e sirvo ao Senhor com os dons e talentos que Ele me deu. Será que eu não posso considerar a ABU como ‘minha igreja’ e minha ‘comunidade de fé’?”.

É sempre bom e gratificante ouvir dos estudantes que eles encontraram na ABU um espaço de serviço, acolhimento, amizade e comunhão! Mas é importante lembrarmos que o ministério estudantil não pode prescindir da igreja local e nunca se propôs a assumir o seu “lugar”. Nos últimos anos, temos observado o crescimento do número de pessoas que, por diferentes razões, optaram por desvincular-se de suas denominações. Não vamos discutir aqui as complexas causas desse fenômeno, mas é interessante observar que ele também atinge os jovens universitários e adolescentes. Não é incomum ouvirmos, nos encontros e treinamentos da ABU, estudantes compartilhando seus dilemas e crises de pertencimento e permanência em suas igrejas locais.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Não há dúvidas de que relacionar-se em comunidade é sempre um grande desafio! E nas comunidades cristãs isso não é diferente. Tanto a ABU como as nossas igrejas são repletas de contradições, limitações, qualidades, defeitos e potencialidades que exigem de nós um espírito paciente, tolerante, humilde, perseverante, cooperador e também disposto a  ouvir, aprender a dialogar, servir e, claro, perdoar.

Para muitas pessoas, a caminhada de fé e o relacionamento com outros irmãos e irmãs em Cristo se iniciam em suas congregações locais. A igreja se torna a base para o discipulado e para a experiência de oração e adoração comunitárias. Ali, aprendemos a servir uns aos outros com os dons e talentos que Deus nos concedeu e nos percebemos como “cooperadores” em Sua maravilhosa obra! Quando ocorrem conflitos ou divergências, surgem também oportunidades para oferecer perdão e promover reconciliação. Segundo Samuel Escobar, o nosso comportamento, como Corpo de Cristo, deve ser digno do Evangelho (Fp 1:27) e “a Igreja deve demonstrar que é uma ‘comunidade radicalmente diferente’, com novos padrões, com uma nova visão acerca do dinheiro e da propriedade, com uma nova atitude em face do poder secular e com um novo poder dela mesma (o Espírito Santo), além de ter uma característica inteiramente nova em termos de amor e fraternidade.”[1]

As Bases de Fé da ABU declaram a crença em: “(uma) única Igreja, Santa e Universal, que é o Corpo de Cristo, à qual todos os cristãos verdadeiros pertencem e que na terra se manifesta nas congregações locais” ou, seja, a ABUB reconhece o papel central desempenhado pela igreja no mundo, assim como a sua vocação missionária como “agente que ele (Deus) proveu para difundir o evangelho”[2]. Portanto, não compete à ABU concorrer com as igrejas locais nem desempenhar suas funções. Ao contrário, o ministério estudantil visa fortalecer a igreja, ampliando o alcance da mensagem do Evangelho até as universidades e escolas de todo o Brasil. Em outras palavras, o papel da ABU é auxiliar a igreja na obediência ao seu chamado de fazer discípulos de todas as nações, tendo como foco e ponto de partida a realidade estudantil.

Ao direcionarem seus novos conhecimentos, habilidades e sua formação acadêmica para servirem ao Reino de Deus, os jovens que atuam na obra estudantil tornam-se mais capacitados e preparados para impactarem positivamente a sociedade e servirem a suas igrejas, convictos de seus chamados. Segundo John Stott, “todos nós precisamos deixar os nossos guetos eclesiásticos e penetrar na sociedade não-cristã. Isso faz parte da missão de serviço sacrificial da igreja. [...]”[3].

O Pacto de Lausanne também destaca a importância da parceria entre as organizações cristãs interdenominacionais e as igrejas, convidando-as a caminharem juntas, a fim de que estejam: “[...] intimamente unidos na comunhão uns com os outros, nas obras e no testemunho.” Finalmente, o documento Pedras Vivas – que apresenta as prioridades estratégicas para a Comunidade Internacional dos Estudantes Evangélicos (IFES) – destaca o desafio de fortalecermos os vínculos de cooperação entre o ministério estudantil e as igrejas locais como expressão da unidade do Corpo de Cristo.

Retomando a pergunta inicial deste texto, podemos concluir que, embora a ABUB possa ser considerada uma comunidade de fé formada por estudantes e profissionais engajados com a manifestação do Reino de Deus no mundo estudantil, ela não representa a Igreja de Cristo em sua amplitude, diversidade e propósito eterno, portanto, não pode substituí-la. A ABU, como organização cristã, participa da missão da Igreja (e nela está compreendida), mas dela difere quanto à sua origem e ao seu destino, pois “a Igreja é criação de Deus, essencial e eterna.”[4]

Que os jovens e adolescentes da ABU e da ABS possam compreender o valor da experiência comunitária em suas igrejas locais, encontrar oportunidades de serviço e engajamento na missão estudantil e que sejamos todos cooperadores de Deus em sua obra redentora e graciosa!


1 Pacto de Lausanne comentado por John Stott, p.53

2 Igreja e Evangelização - Pacto de Lausanne, 1974

3 Pacto de Lausanne comentado por John Stott, p.53 4 Pacto de Lausanne comentado por John Stott, p.60


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