Entre nós

A missão continuou e continuará

Na primeira quinzena de março o contágio por coronavírus no Brasil cancelava as aulas presenciais em todo o país. Nosso maior campo missionário, as escolas e universidades, tornava-se, então, inacessível por questões de saúde. A expectativa de uma quarentena que diminuísse rapidamente a contaminação e permitisse o retorno à "vida normal" foi aos poucos substituída pela realidade de uma pandemia sem o tratamento ideal para cura nem vacina. Como a missão estudantil foi afetada?

Tínhamos grandes sonhos para 2020: um Congresso Nacional (CN) que marcaria a década e, a partir dele, um planejamento estratégico que guiaria a Aliança Bíblica Universitária do Brasil (ABUB) nos próximos anos. Mas Deus sonhou algo diferente. Ele preparou para o nosso movimento estudantil um ano de aprendizados e inovações tanto na nossa forma de preparar os estudantes missionários e obreiros para os desafios imprevistos quanto na maneira de fazer missão.

Enquanto ainda conversávamos sobre o futuro do CN, iniciamos no dia 23 de março nas redes sociais uma campanha com ideias para manter os grupos locais ativos: #AMissãoContinuaDeCasa. (Confira no fim deste texto algumas das sugestões e compartilhe-as com seu grupo local!) Os grupos regionais e locais usaram a hashtag para mostrar que suas atividades seguiam, e a ação se estendeu para nosso canal no YouTube com vídeos e oficinas abertas e online, nas quais tivemos um bom acesso. Os tempos mudaram, nossa forma de contato mudou, mas a missão de Deus não havia mudado!

Em abril decidimos suspender o Congresso Nacional e, frente à necessidade de continuar suportando esta geração em formação, algumas regiões se mobilizaram para organizar nosso primeiro curso online, que depois foi nacionalizado. O Curso de Formação Missionária 2020 durou quatro semanas entre junho e julho e teve inscrições abertas para todos os interessados. Alcançamos 668 inscritos e estimamos que entre 300 e 400 pessoas realmente participaram das atividades propostas, como acontece com eventos gratuitos e virtuais. Contando o primeiro número poderíamos dizer que este é o maior evento da ABUB desde o Congresso Missionário 2006, que tinha gente de toda a América Latina. No Curso de Formação Missionária, por sua vez, por volta de 25% dos inscritos eram pessoas que não conheciam ou não participavam da ABUB.

Quatro exposições bíblicas, quatro palestras, vinte e nove oficinas, devocionais diários em áudio, respostas artísticas, duas mesas redondas e oito transmissões ao vivo com louvor, depoimentos e entrevistas preencheram todos os dias das semanas. Enquanto o ambiente menos pessoal das plataformas online poderia manter o evento sem interação, os participantes tiveram a oportunidade de se encontrar em cinquenta e sete grupos pequenos de oração toda semana para compartilhar, aprender e orar uns com os outros. Nestes, o apoio de voluntários foi essencial: a maioria foi dirigida por estudantes e recém-graduados.

Os chats das oficinas também tornaram-se ponto de encontro, como explica o obreiro de Minas Gerais, Heitor Barboza: "As pessoas reconheciam umas às outras nas diferentes oficinas e interagiam bastante entre si nos comentários, isso me lembrou nossos eventos presenciais". O assessor explica que, em algumas atividades, as discussões levantadas foram levadas para grupos de WhatsApp informais, montados pelos próprios participantes que queriam continuar os debates. Heitor resume a experiência do evento:

"A realização do Curso de Formação Missionária foi certamente desafiadora. O número de participantes, as plataformas, os métodos, todos foram muito diferentes do que estamos acostumados a fazer em relação à formação. Com o fim do evento, percebemos que nossas expectativas foram superadas, tanto em relação à participação numérica dos inscritos quanto à participação qualitativa. Para o futuro, certamente pensamos em muitos pontos que precisam ser ajustados e melhorados, porém, diante do tempo de preparo e recursos disponíveis, ficamos muito contentes com o resultado."

Após o evento, os participantes foram convidados a preencher uma avaliação e foram obtidas 150 respostas (estes provavelmente foram os que acompanharam todas as semanas e ficaram atentos aos materiais até o final). Todos disseram que indicariam o curso para um conhecido e um terço acompanhou o cronograma de leitura proposto para os livros de Esdras e Neemias durante as semanas. 90% atribuíram nota 9 ou 10 em relação ao nível de satisfação com o que foi oferecido e 96% participariam novamente caso a ABUB voltasse a organizar outro evento como esse.

Cerca de 100 pessoas ajudaram na organização do evento. Dentre esses, Gabriela Gil, primeira tesoureira regional e participante da ABU Uberlândia (MG). Para ela, a experiência foi surpreendente. "Inicialmente, parecia um grande desafio, pois temi a falta de engajamento dos estudantes e os problemas que poderiam surgir durante aquelas quatro semanas. Porém, ao ver a grande quantidade de participantes de vários lugares do Brasil (e até de fora!) e a forma como tudo fluiu durante o curso, percebi o sustento de Deus e o chamado dele sendo respondido por pessoas dispostas a aprender e a cumprir o 'ide'. Creio que o curso plantou no movimento estudantil a criatividade e a ousadia de cumprir a missão mesmo em situações adversas."

Mundo estudantil: o que mais continua em 2020?

Depois de quatro meses de isolamento social e cancelamento de aulas presenciais, em julho, o MEC publicou diretrizes para a retomada nas instituições federais e algumas universidades começaram a se organizar para a volta, mas outras declararam: o retorno seguro não será possível em 2020.

Quando este panorama se tornou mais claro, a maioria das instituições de ensino superior organizou as datas do segundo semestre com ensino remoto. Com a experiência, é provável inclusive que o modelo híbrido de aulas virtuais e presenciais ganhe força, especialmente nas faculdades particulares, conforme relata o jornal Hoje em Dia. Esse pode ser um futuro desafio para a nossa missão.

Ainda que muitos estados flexibilizem as restrições sanitárias, mesmo com números altos de contaminação e morte, a volta às aulas segue instável. Alguns estados determinaram retomada em agosto, mas apenas o Amazonas e o Maranhão (para a rede privada) mantiveram. Muitos recuaram na decisão e outubro é a expectativa para alguns. De acordo com a Agência Brasil, os estados Amapá, Tocantins, Espírito Santo, Rondônia, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte planejavam retomar em setembro, mas até a publicação deste texto apenas o Pará, Rio de Janeiro, alguns municípios de São Paulo tem esta possibilidade mais palpável (fonte). A situação estadual e municipal pode ser acompanhada por este link não oficial (nem sempre atualizado). Em muitos lugares, os cursos de saúde estão liberados de alguma forma para realizar aulas práticas. Outras universidades, como Unifor, propuseram classes em áreas externas – ainda não aprovadas.

A data determinada pelos estados influencia muito mais as escolas e algumas universidades privadas do que as públicas. Até o momento, todos os comunicados que encontramos de universidades públicas não preveem o retorno à sala de aula este ano para a grande maioria dos estudantes. Foi publicada em agosto uma pesquisa que aponta que a aula presencial pode aumentar a taxa de infecção em 46% em dois meses, mesmo com as restrições. Em Manaus (AM), por exemplo, o contágio entre professores aumentou de 162, na testagem de 18-21 de agosto, para 342 nos dois dias seguintes.

Cada vez mais estudantes encaram dificuldades de acompanhar as aulas à distância. Para alguns, a questão vem desde o início da pandemia pela falta de acesso ideal às aulas e aos equipamentos necessários para acompanhá-las. Para outros, o peso emocional de um longo período afastado altera o desempenho. Ainda há aqueles que foram afetados pela covid-19 e outros que viram a renda familiar reduzir com o isolamento.

Só nas universidades particulares, por exemplo, 265 mil estudantes abandonaram ou trancaram o curso entre abril e maio. Também se prevê um novo aumento na evasão escolar. Somente em agosto o MEC iniciou um programa para fornecer dados de internet a 400 mil alunos com renda mensal familiar por pessoa até meio salário mínimo, alcançando 25 universidades e 15 institutos federais. Mais um desafio para nossa missão: servir estes estudantes em dificuldades.

Assim, talvez algumas ABS's (Aliança Bíblica de Secundaristas) voltem a se ver pessoalmente, embora é pouco provável que a reunião de grupos sejam permitidos pelas direções. Mas a maior probabilidade para as ABU's (Aliança Bíblica Universitária) é que o cara-a-cara ficará para 2021. A maioria dos grupos, inclusive as ABP's (Aliança Bíblica de Profissionais), terá de continuar investindo na criatividade para manter seus encontros, alcançar seus colegas para a graça de Cristo e servir ao seu contexto manifestando o amor de Deus. Para continuar oferecendo formação e encorajando estas ações, estamos desde agosto trabalhando em diversos conteúdos o tema "Visão, vocação e vivência", como você pode ler aqui.

A missão deve continuar sempre, seja qual for a circunstância e o local. Com todos os aprendizados que acumulamos nestes seis meses, não precisamos mais recordar esta continuidade. Apenas precisamos responder ao chamado.

#AMissãoContinuaDeCasa

Com esta hashtag, compartilhamos sugestões para que os estudantes continuassem não apenas os estudos bíblicos indutivos à distância, mas também formas práticas de evangelismo e serviço. Confira abaixo algumas das sugestões que foram compartilhadas e aqui estão adaptadas e complementadas. Caso seu grupo já não as tenha aplicado, leve as melhores para conversar com seus colegas e continuar fazendo missão.

Mordomia do tempo

Desde o começo sugerimos aos abeuenses a criação de uma rotina saudável, com hora de estudo/trabalho, meditação bíblica e oração, além de momentos de cuidado com a casa e consigo, descanso e entretenimento.

Uma ideia a mais seria oferecer uma oficina de mordomia do tempo não apenas ao seu grupo local, trazendo a perspectiva bíblica da questão, mas também aos colegas de sala de aula. Com ideias práticas, mas não deixando de citar a inspiração na Palavra, a atividade pode ser uma oportunidade de testemunho.

Estudo e missão

Inspirados por Daniel 1:3-20, convidamos os estudantes a destacarem-se enquanto alunos dedicados mesmo na quarentena, sendo firmes em meio à tribulação e manifestando assim a glória de Deus. Realizando tudo com excelência.

Mas para além do testemunho individual, sugerimos que os estudantes organizassem grupos de estudo online, auxiliando um ao outro na disciplina dos estudos e testemunhando sobre a generosidade graciosa de Deus ao ajudar os colegas.

Se interessou? Para refletir mais sobre outras formas de engajar-se com a sua universidade, confira esta oficina do obreiro Josué Bratfich.

Descubra João

Que tal convidar amigos para os seis estudos do Descubra João? Logo no começo da quarentena disponibilizamos todos os estudos na íntegra no site http://abub.org.br/descubra. Assim, basta convidar seu amigo (ou grupo de amigos) não cristão a descobrir por si mesmo quem foi Jesus e marcar os seis encontros semanais online. Há muito mais pessoas curiosas sobre Cristo do que imaginamos! Também é possível encomendar um caderno para ser enviado diretamente aos amigos que participarem.

Não conhece o projeto? Confira mais neste vídeo no nosso canal.

Sirva aos vizinhos

Em nossa visão, dizemos que queremos estudantes que impactem, além do mundo estudantil e a igreja, a sociedade para a glória de Cristo. Falamos muito sobre como Deus nos coloca na universidade para sermos missionários lá, não é? Então, se nesse momento estamos em casa, esse é o local para sermos testemunhas!

Por isso apresentamos a sugestão que vimos por aí, de colocar em áreas públicas dos condomínios o seu contato se oferecendo para ajudar idosos ou outras pessoas de grupos de risco nas compras do mercado ou drogaria. Sirva seus vizinhos. Apresente a eles a graça imerecida de Cristo. Veja que outras necessidades eles podem ter e como você pode contribuir.

Acolha seus amigos

Muitos dos que estudam fora de casa podem ter ficado isolados da família, sem conseguir retornar. Outros retornaram para contextos difíceis. Para os que moram sozinhos, é possível que o sentimento de solidão cresça muito. E agora, depois de meses de pandemia, será que não há algum estudante com quem poucos conversaram e talvez esteja solitário? Como os abeuenses podem acolher e apoiar estas pessoas?

Inspirados em Marcos 10:51, em que Jesus pergunta a Bartimeu o que ele quer que lhe faça, sugerimos que os estudantes perguntem como seus colegas estão, o que precisam, o que está sendo difícil, ainda que pareça óbvio. Mesmo se não tiverem a solução, mostrar-se disposto a ouvir já é um grande passo.

Outras ideias são combinar de almoçar "juntos" via videochamada ou fazer algum jogo. Se o colega for cristão, orar juntos. Deixe claro que seus colegas isolados não estão sozinhos!

Acolha estudantes internacionais

Será que sua universidade ainda tem intercambistas que estão aqui? Se você não sabe a situação de sua universidade, entre em contato com o serviço da sua instituição de ensino que cuida dos intercambistas e explique suas intenções de acolhimento. Coloque-se à disposição para acompanhá-los e pergunte se podem ceder os contatos deles ou informá-los do seu contato individual ou do grupo local.

Ensine o que você sabe fazer

Um amigo seu está sem acesso ao restaurante universitário e precisando se virar na cozinha? Que tal organizar aulas de culinária? Outro precisa praticar o inglês, espanhol, francês? Aulas de língua!

Que tal organizar com seu grupo local para levantar as necessidades de seus colegas não cristãos e buscar como vocês podem ajudá-los compartilhando conhecimento ou convidando assessores e profissionais para ajudar? Aulas online, organizadas para um grupo de pessoas que já se conhecem, é uma ótima forma de estreitar laços e servi-los nestes dias de isolamento.

O foco é servir aos estudantes! Mas depois das aulas, vocês podem até convidá-los para um estudo bíblico temático, que tal? Quando Elias pediu pra viúva fazer um bolo em 1 Reis 17 fala sobre comida e provisão. Estudar um salmo em outra língua é uma forma interessante de ganhar vocabulário. Se precisar de dicas para fazer estudos bíblicos, confira esta e esta oficinas no nosso canal.

Generosidade e comunhão, sugestão por Tályta Alencar

"[As igrejas da Macedônia] têm sido provadas com muitas aflições, mas sua grande alegria e extrema pobreza transbordaram em rica generosidade. [...] Eles nos suplicaram repetidamente o privilégio de participar da oferta ao povo santo." - 2 Coríntios 8:2;4 (NVT)

Em grego, o verbo “participar” é o mesmo de “koinonia”, que conhecemos com a tradução “comunhão”. Costumamos entender comunhão como esse momento de estarmos juntos em grupo, conversando e interagindo. Com o isolamento social podemos sentir que estamos sendo privados dos nossos momentos de comunhão com a paralisação de atividades da igreja e de encontros da ABS, ABU ou ABP.

Mas a igreja da Macedônia tem algo a nos ensinar: a comunhão vai além da alegria dos encontros! A comunhão, na verdade, é formada nessa alegria de compartilhar e encontrar coisas em comum nos outros, como nossas alegrias e dores, e isso gera em nós o desejo espontâneo e generoso de suportarmos uns aos outros.

Em meio a muitas adversidades e sofrimentos, as igrejas da Macedônia foram insistentes porque queriam estar junto! Ser parte! E essa participação na comunhão se deu de uma forma bastante prática: enviando uma oferta a outras igrejas que precisavam de apoio.

Quais oportunidades temos hoje para de fato seguirmos alimentando nossa comunhão como grupo? Todos podemos estar preparados e posicionados de forma estratégica para apoiar pessoas da nossa comunidade nesse momento tão sensível. Seu apoio pode ser emocional ou econômico. De que formas práticas seu grupo tem apoiado uns aos outros e à comunidade estudantil?

Que aquele que se fez igual e se entregou por nós nos ensine sobre a alegria da generosidade e comunhão.

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