Uma volta pelo movimento

Grupo local: espiritualidade, missão e comunidade

Reinaldo Percinoto Junior*

Há alguns anos, chegou às minhas mãos uma cópia de um artigo escrito pelo Dr. René Padilla, no qual ele procurava analisar algumas das principais características da Comunidade Internacional de Estudantes Evangélicos (CIEE, ou IFES em inglês), por ocasião da celebração de seus 50 anos de existência.

Neste artigo, Dr. René destacava logo de início: “É possível que, de todas as qualidades que caracterizam a Comunidade Internacional de Estudantes Evangélicos, nenhuma tenha contribuído tanto para a efetividade de seu ministério, ao longo de meio século de sua existência, como sua ênfase na iniciativa local”. De fato, esta “qualidade” tem caracterizado este movimento estudantil evangélico desde os seus primórdios, então concebido como uma assossiação de entidades nacionais, tendo cada uma delas a “liberdade para planejar e levar à cabo seu próprio projeto missionário em seu próprio contexto”.

E esta “liberdade” peculiar acabou impactando positivamente todos os níveis organizacionais do nosso movimento, influenciando nossas bases missionárias: os grupos locais. Assim, cada grupo estudantil, em cada cidade do país, é encorajado a discernir seu contexto de atuação e desenvolver ações missionárias que sejam adequadas para a sua realidade, enquanto nossos laços de unidade se fortelecem por meio do compromisso com o Evangelho (bases de fé) e do propósito de evangelizar o mundo estudantil (estudante alcançando estudante).

Essa constante reflexão e preocupação, geração após geração, acabou marcando profundamente nosso entendimento e nossa práxis nas áreas de formação e discipulado – dois caminhos que sempre se encontram. E, não obstante a importância estratégica de nossos encontros regionais e nacionais de formação, a vivência cotidiana do grupo local se apresenta como um espaço privilegiado para uma rica experiência de capacitação e discipulado cristão.

Ainda segundo René Padilla, essa ênfase da CIEE/ABUB na iniciativa local, pela graça de Deus, ofereceu ao menos três contribuições  para o desenvolvimento do cristianismo em nosso continente/país. Em primeiro lugar, proporcionando um ambiente para o surgimento de líderes com uma espiritualidade que inclui o cultivo de uma mente cristã. Vários estudantes e graduados testemunham ter sido no movimento estudantil o lugar onde aprenderam a estudar seriamente as Escrituras e a relacionar sua fé com a vida cotidiana; a ler boa literatura, a refletir criticamente e a examinar tudo e reter o que é bom. O movimento estudantil também lhes ensinou que “crer é também pensar”, e lhes desafiou a colocar todo pensamento sob o senhorio de Jesus Cristo.

Em segundo lugar, a CIEE/ABUB contribuiu com o redescobrimento da missão integral em círculos evangélicos latinoamericanos. Certamente a evangelização tem ocupado, ou ao menos deveria ocupar, um lugar central na vida de nosso movimento. No entanto, os estudantes e graduados também são levados a compreender a impossibilidade de separar a evangelização do serviço, lhes ajudando a desenvolver uma profunda sensibilidade frente às necessidades físicas e materiais, econômicas e sociais de sua sociedade, redescobrindo a relevância do Evangelho para todas as dimensões da vida.

Finalmente, a CIEE/ABUB tem buscado exemplificar com sua própria vida e ministério o significado da unidade em Cristo. Como um movimento de caráter interdenominacional, busca superar muitas das barreiras que por vezes separam as igrejas. E lutando por um testemunho unido na escola e na universidade, tem criado um ambiente de colaboração mútua e de abertura ao diálogo com todos.

Essa é uma pequena lista de contribuições positivas. Existem outras. E uma lista de debilidades da CIEE/ABUB seria certamente bem maior ainda (risos). Mas não podemos deixar de agradecer a Deus por nossos grupos locais, uma vez que eles tem se tornado uma “escola-oficina” onde muitos estudantes têm encontrado espaço e oportunidade para desenvolver uma visão bíblica da espiritualidade, da missão e da vida comunitária.

E continuemos orando ao Senhor por esses grupos estudantis e profissionais, para que cada um deles, na universidade, na escola e no ambiente profissional, seja transformado numa presença de Cristo e numa porta para Cristo!

A Deus seja a glória!
  
* Reinaldo Percinoto Júnior foi  secretário geral da ABUB entre os anos de 2006-2014, servindo o movimento também como obreiro regional (Centro-Oeste) desde o final da década de 90. Deixou o cargo no primeiro conselho diretor de 2015.