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Vida equilibrada e produtiva na universidade: Onde começar?

Carluci Ferreira dos Santos
(ex assessor da ABU região Centro Oeste)

 

A universidade apresenta desafios e perspectivas novas a todo estudante. Ela é um mundo novo para o jovem estudante. Muitos chegam aqui ainda adolescentes. Esta breve passagem pela universidade é um momento de transição e possíveis rupturas. Muitos chegamos à universidade em crise. É a primeira vez que saímos de casa, do grupo de amigos, da comunhão da igreja local. Mal saímos da adolescência, e já fizemos uma opção acadêmica e profissional que nos afetará durante toda a vida adulta; e ainda faremos muitas outras escolhas importantes. O estudante na obra evangelizadora e discipuladora estudantil terá ainda mais tensões e desafios. Como desenvolver uma vida equilibrada e produtiva neste contexto? Pôr onde começar?

Neste artigo proponho que uma vida produtiva e equilibrada se constrói a partir de um pensar com a mente de Cristo em todas as esferas da vida; e se estabelece em relacionamentos vitais e sadios. Combate-se o bom combate de Cristo firmados na fé e com boa consciência, do contrário, naufragamos (1 Tim. 4:18,19). Nossa produtividade e equilíbrio começam com o desenvolvimento de uma cosmovisão bíblica. É necessário aprender a pensar a vida, nosso relacionamento e nossa atuação na experiência universitária com a mente de Cristo. O Peregrino nos ensina que em qualquer lugar onde nos encontramos podemos erguer um altar a Deus através de nosso pensamento (O Peregrino Russo, SP: Edições Paulinas, 1986, p.95.)


A relação do estudante com a universidade e sua formação profissional

A universidade tem uma cosmovisão própria. Sou capaz de discerni-la? Como posso discernir a influência da universidade na minha formação? Sou ensinado a prestar contas a alguém? No trabalho acadêmico nem sempre se tem a consciência de que somos criaturas finitas vivendo em um universo onde há um Deus Soberano. Qual a base moral do ensino que recebemos ali? Entre os elementos que predominam no campus podemos destacar, a competitividade (desde a preparação para o vestibular), e nos vários concursos que se seguem. O saber é centrado na busca da autonomia do ser humano; é uma visão puramente antropocêntrica onde cada um é o seu próprio ‘deus’; e define sua própria ética e moralidade. Terceiro, há ainda um distanciamento entre o saber acadêmico e as necessidades primárias da sociedade. Pôr exemplo, em se fazendo uma especialização, priorizo o bem maior ou procuro uma oportunidade de ter lucros maiores? Como a universidade participa e se preocupa com as questões sociais sejam locais, ou de âmbito nacional? Quais são seus projetos? Questione-a. Proponha novos caminhos. Participe. Infelizmente, a busca do prazer e da folia caracteriza a filosofia de atuação de DA’s, e suas manifestações de prazer irresponsável, improdutivo e inconseqüente. Alguns estudantes me perguntam se deve ou não ir a um barzinho ou a uma festa na casa de colegas de faculdade. O estar ali não consiste um problema em si, mas se estou ou não testemunhando de minha fé em Cristo. A sabedoria dos pais do deserto nos ensina que o espírito humano não se contenta com o que satisfaz os sentidos. Quanto menos ele consegue alcançar a felicidade, mais a persegue. Na mobilização estudantil do campus raramente há produção artística, acadêmica ou qualquer acréscimo à vida. O processo político é mais caracterizado pela manipulação do que pelos valores democráticos sobre os quais discursam. Qual a nossa proposta para o campus? Para a comunidade estudantil?

É preciso encarar a universidade como uma oportunidade de treinamento para o serviço no Reino de Deus; definir e pautar a carreira profissional a partir de uma ética cristã. Este serviço cristão pode tomar diversas formas e não significa necessariamente que você se filiará a uma missão local ou transcultural. É antes de tudo uma forma de ver a vida em Cristo, onde Deus o colocar, seja em uma instituição pública (municipal, estadual, federal), privada ou de natureza eclesiástica; ou trabalhando como autônomo. Uma cosmovisão bíblica implica em quebrar a dicotomia entre o ‘sagrado’ e o ‘secular’. Servimos a Deus não somente na adoração nos momentos de culto mas também na carreira de docente e na escolha de uma linha pedagógica, na escolha de uma especialização médica, nos cálculos da engenharia, nas definições de políticas econômicas, nas decisões nos tribunais ou no fórum político.

Nós temos a mente de Cristo (1 Cor. 2:16); e, portanto, somos exortados à não conformação com este mundo pela transformação de nossa mente (Rom. 12:2). Henri Nowen, um sacerdote e teólogo contemporâneo, nos alerta que sem uma sólida mente cristã, profissionais cristãos seremos pseudoprofissionais, e incapazes de discernir a ação de Deus na nossa história no seu dia a dia. O dia a dia na universidade nos sensibiliza ou não aceitar o caminho do poder, da arrogância, da auto-suficiência ou o caminho da cruz ? (Henri J. M. Nowen, O Perfil do Líder Cristão no Século XXI. Americana: Worship Produções, p.70).

Os servos de Deus vivem neste mundo mas não são deste mundo; este mundo é o mundo da Criação de Deus. Reconhecemos que Ele é Senhor Soberano sobre tudo e sobre todos os seres vivos; Ele sustenta o universo, seja na dimensão do macro-cosmos ou do microcosmos. Ele é a fonte de toda vida. Qual minha motivação para estar na universidade? Como o meu projeto de vida está em sintonia com o projeto de Deus para sua Criação e seu plano para redimi-la? Como minhas decisões perpetuam as obras das trevas ou são como luz que dissipa as trevas? Se estou na universidade, com que motivação cheguei até aqui? Com que ambições vou encarar o mercado de trabalho?


O testemunho cristão no campus

Ao chegar ao campus esteja em oração. Esteja certo que Deus o levou ali. Use sua criatividade e descubra outros companheiros cristãos. Organize-se. Seja líder! Vamos inundar a universidade com células de oração, grupos de estudos bíblicos, as palestras de cunho pré-evangelístico, os programas de recepção de calouros, campanhas de evangelização, grupos de teatro, música, projetos sociais e comunitários, cultos de formatura. Tenho visto que muitas pessoas, incluindo familiares, amigos e parentes de formandos ouviram o evangelho pela primeira em um culto de formatura organizado pôr algum colega cristão entre os formandos. Busque o apoio de outros que já estão engajados ou que já passaram pôr este ministério. Não seja indiferente às iniciativas estudantis no seu campus. A nossa vida só tem sentido quando a vivemos em obediência a Cristo. Na universidade estamos preparando para melhor serví-lo em missão. Seja presente de uma forma criativa, equilibrada, mas antes de tudo, seja um líder, pescador de homens! Leia, estude, avalie e descubra a melhor forma de agir e influenciar seus colegas e professores. O Espírito Santo irá guiá-lo quando você pedir-lhe socorro!

 

A relação do estudante com sua família

Certamente, sair de casa para estudar é uma experiência rica para todo estudante. Na verdade, a grande maioria ainda é financeiramente dependente da família. Entretanto, como parte natural de meu amadurecimento eu passo a ver a família de uma forma diferente, sua alegria e sua dor. Eu começo a ganhar perspectiva na vida familiar. Mas a convivência no ambiente da universidade pode afetar positiva ou negativamente minha forma de ver a família. Como me relaciono com minha família a partir de minha vida na universidade? Como passo a ver meus pais, meus irmãos? A vida na universidade está me aproximando deles de uma forma madura, sadia e carinhosa ou me distancia dos valores básicos da família? É importante reconhecer nossa individualidade sem desonrar nossos pais e irmãos. Pais cristãos sadios (pareceria que ser cristão é necessariamente ser sadio) nos afirmarão e nos ajudarão a descobrir os propósitos de Deus para nossas vidas. Eles são os nossos primeiros amigos; são aqueles que mais investiram em nossas vidas. Não podemos ignorá-los ao tomar nossas decisões mais importantes. Henri Nowen fala também sobre a árdua tarefa do líder cristão do próximo século de responder aos conflitos familiares (Nowen, p.71). É preciso dizer não ao fatalismo, à derrota, à casualidade ou eventualidade que querem nos dizer que a família está falida! Não! A família, a igreja, o círculo de amigos é o lugar para aprender e desenvolver a intimidade libertadora de Jesus.

 

A relação do estudante com a igreja local

É fundamental estar ligado a uma igreja evangélica local. A igreja local é parte do grande corpo de Cristo, invisível, indivisível! É tempo de ganhar perspectiva na cultura religiosa de minha igreja local e aprender a servi-la e não procurá-la para servir-se de suas preferências, suas cores, sua teologia e seus ritmos. Nossa presença na igreja local deve ser marcada pela atitude de serviço e não crítica desencarnada. “A maior parte da liderança cristã é exercida pôr pessoas que não sabem desenvolver relacionamentos sadios e íntimos, e pôr isso fazem opção pelo poder e pelo domínio” (Nowen, p. 64) Como estou planejando servir ao Senhor na igreja local? Como estou me relacionando com ela? Qual é a minha atitude: arrogância ou serviço? Declaro autonomia e auto-suficiência ou com genuína humildade compartilho o alegre sentimento de ser corpo?

 

O cuidado com a vida pessoal: relacionando-se consigo mesmo

Para concluir, é fundamental que tenhamos objetivos claros nos vários aspectos de nossa vida no campus: para a vida acadêmica e social, para o grupo bíblico, a vida familiar, bem como a vida na igreja. E pôr último, cuida de ti mesmo e da sã doutrina (1 Tim. 4:16). Richard Foster, no clássico “Celebração da Disciplina: O Caminho do Crescimento Espiritual” (SP: Editoria Vida, 1995) propõe a disciplina espiritual como porta para nosso livramento. Esta é outra leitura indispensável! Pratica-se a espiritualidade no cultivo de amizades e lazer sadios, na prática da oração e do estudo da palavra, na leitura e reflexão teológica bem como no cultivo das virtudes cristãs. Disciplina espiritual é ainda manter a palavra quando empenhá-la em algo, ser honesto no cumprimento das tarefas; ter uma atitude correta para com o meu corpo e minha sexualidade; ter uma atitude crítica diante de minha cultura e saber identificar nela seja a beleza da graça comum ou a inimizade e rebeldia contra Deus.

Orai sem cessar (1 Tes. 5:17). A oração deve ser presente em tudo o que fizermos. Em O Peregrino Russo, O professor perguntou ao monge se o trabalho acadêmico, profissional é compatível com a vida de oração. É comum pensar que a vida de oração é mais aconselhada para aqueles que tem condições exteriores favoráveis, que se afastam dos negócios, das preocupações e inevitáveis distrações do dia a dia. O monge assim lhe respondeu,

 

“suponhamos que um monarca severo e exigente vos ordene escrever um tratado a respeito de um assunto abstrato, em sua presença, diante de seu trono. Embora possais estar todo entregue a vosso trabalho, a presença do rei, que exerce poderio sobre vós e que tem a vossa vida entre as mãos, não vos deixará esquecer um só instante que pensais, refletis e escreveis não na solidão, mas num local que exige de vós uma atenção e um respeito particulares. Essa consciência da proximidade do rei exprime muito claramente ser possível aplicar-se à oração interior permanente, até mesmo durante um trabalho intelectual.” (O Peregrino Russo, p.97.)

 

A minha prática cristã, seja através do hábito de leitura bíblica, oração, freqüência à igreja, comunhão com os irmãos tem trazido crescimento e maior comunhão com Deus? Sou mais semelhante a Cristo? Tenho prazer em desviar-me do mal?

 

Devemos nos perguntar quais são algumas áreas de nossa vida onde devemos priorizar algo para encontrar um equilíbrio interior e exterior. Uma pergunta mais fundamental, entretanto, é “Onde está o meu coração?” Certamente, onde estiver o meu tesouro, aí também estará o meu coração (Mat. 6:21). Deus nos deu a mente de Cristo; Ele nos deu também o dom do Espírito Santo. Que outros tesouros vamos buscar? Ouçamos a contínua voz do Senhor que nos pede, “Filho meu, dá-me o teu coração!” Ele nos escolheu para despertarmos os outros da morte para a vida!