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Carta - Surpresas do Caminho

Carta – Surpresas do Caminho

Sempre brinquei com meus amigos dizendo que, se porventura, seguir a Cristo for apenas não beber, não fumar e não namorar, devo ser crente desde que nasci! Concordo com C.S.Lewis quando ele troca o termo conversão religiosa para: “surpreendido pela alegria”. Quando criança minha avó sempre falava a respeito de Cristo, sem perceber eu já estava caminhando com ele. Talvez não da forma mais tradicional, pois meus pais não freqüentam instituições religiosas apesar de declararem-se cristãos. Acho que sempre fui um garoto meio covarde, através do medo ou do respeito, eu sempre rezava o “Pai nosso” antes de dormir e me sentia culpado quando dormia durante a oração ou quando esquecia os pedidos.

Mesmo sem fazer parte de qualquer igreja, não sei exatamente com quantos anos -talvez doze, ou onze - comecei a praticar uma leitura bíblica cotidiana. O que me levou a isso? Não sei ao certo, eu era um garoto meio tristonho, que se isolava frente à televisão, vezes lendo. Todavia, ler a bíblia sozinho me proporcionou adentrar numa grande aventura, um romance com heróis, traidores, guerras, poderes sobrenaturais, fogo que vinha dos céus, o bem e o mal em confronto, gigantes, leões e um cabeludo que, desarmado, incitava uma revolução na alma dos homens.
Muitos nascem na igreja, ou freqüentaram bastante a igreja antes do primeiro contato com a bíblia, para estes, as histórias bíblicas não são inéditas como foram para mim. Em minhas leituras, mesmo já ouvindo falar, eu simplesmente não sabia que Davi venceria Golias com uma pedrada. Davi era meu herói, até o dia em que quase chorei no meu sofá... Foi quando li sobre o assassinato e adultério que o mesmo havia cometido. Eu criava em minha mente o cenário de cada guerra do povo de Israel. Admito que pulava os trechos bíblicos mais chatos, e as reflexões confusas de Paulo, essas eu lia apenas para satisfazer minha consciência. Enfim, foi uma surpresa saber que a história de Sansão era bíblica, imaginava ser apenas um episódio do Chapolim Colorado, no entanto creio que grande parte do que eu lia não conseguia compreender muito bem.

A leitura bíblica contribuiu, mas acho que fiz da bíblia apenas mais um romance secular, ou um sacrifício cotidiano. Posso estar errado, mas só percebi que não estava sozinho em minha caminhada de vida quando passei por sérios problemas de depressão. Desentendimentos com meu padrasto (considero-o como pai), fizeram-me sair de casa e ingressar num colégio de regime internato. Não gostava muito do curso, na verdade só queria mesmo era fugir de casa. De certa forma, apesar dos bons momentos que vivi nesse colégio, minha depressão crescia a cada desapontamento com vida. Escrevia poesias melancólicas e chorei muito quando reprovado em algumas provas de vestibular ( algumas universidades aplicam processos de avaliação diferentes no nordeste), isso contribuiu mais ainda para minha doença da alma. Porém, mesmo ainda meio arisco e longe de igrejas, a dor inevitavelmente apontou o caminho para o consolador, alguém que sorrateiramente invadia minhas poesias e oferecia a elas um final feliz.

Descobri que não estava só. Isso me deu forças para não cometer uma tragédia contra minha vida. Acho que em nenhum instante de minha depressão chorei sozinho, entre abraços invisíveis, conheci esse Amigo e Pai que amo tanto. Não levantei minha mão em nenhum apelo da igreja, não fui até Deus, Ele veio até mim, invadiu, conquistou, ocupou um vácuo da alma, com seu carinho, consolo e amor.

Nos últimos anos de internato eu comecei a visitar algumas reuniões evangélicas que ocorriam no colégio. Contudo inclinei-me mais para um outro viés de identidade cristã. Todos os sábados, eu e meus amigos fugíamos da escola para assistir uma missa de um padre que aprendi a admirar pela sua sabedoria e eloqüência, ele me influenciou muito com suas reflexões (diferentes de qualquer outros sermões já ouvidos por mim). Brinco, ao crer que ele não seguia as orientações do Papa. Falava de um Jesus simples, com palavras que penetravam na alma pela força do Verbo. Desde então, tornei-me viciado em refletir nos ensinamentos de Cristo. Na cama de baixo da minha beliche, refletia sobre a vida e suas mazelas e por vezes isso aumentava minha tristeza... lembro-me dos meses de guerra no Iraque, nunca procurei tanto por respostas como naqueles dias. Por vez encontrava alento, vezes me desesperançava novamente num ciculo vicioso .

Eu estava determinado a conhecer mais sobre esse Jesus que vinha causando tantas mudanças e confusões e surpresas em minha alma. Não sei bem explicar a razão, talvez sobre a influencia desse padre ou em virtude da minha timidez e insucesso com as mulheres, resolvi procurar um seminário católico. Resolvi tornar-me padre, no entanto, depois da primeira visita ao seminário desisti dessa idéia. Deparei- me com algumas instruções discordantes com a bíblia e, um tanto, distantes dos sábios ensinamentos do bom padre.
Quando terminei meu curso, sai do colégio interno e procurei uma igreja batista em minha pequena cidade, depois de um mês de igreja um irmão me perguntou: “Rafael, hoje, dia...você crê que Jesus é seu único salvador?” Pensei: “como assim?Acho que sempre foi!”. Na verdade não entendi bem a pergunta dele, mas não o contrariei. Hoje entendo melhor essa pergunta, e bem sei que a resposta sempre foi uma certeza bem viva em mim, antes mesmo que houvesse a pergunta.

Após três meses nessa igreja ingressei na UFRuralRJ e de repente conheci a ABU (Aliança Bíblica Universitária). Nesses dias compreendi de sobremodo o que Jesus chama de próximo, família, Corpo. Irmãos samaritanos que passando pela universidade encontraram um jovem ferido, longe dos pais e cheios de inquietações no coração. Cuidaram carinhosamente desse jovem e por fim, apenas sussurraram em seus ouvidos:”Vai e faz o mesmo”. Esse foi o meu “ide”. Lembro-me da minha timidez no grupo e do meu primeiro estudo bíblico. O tema era dia do PAI, fiz analogias entre Deus Pai e o dia dos pais. Foi nesse dia também que liguei para o meu padrasto e pedi perdão por todos os nossos desentendimentos. Foi na universidade e com o auxílio da ABU que descobri um amor inexplicável de Deus para comigo, isso me ajudou a superar crises da alma que ainda me afligiam. “O Amor de Deus”, esse era o tema de grande parte dos meus estudos na ABU... até hoje é. Descobri o grande segredo da bíblia e sua chave hermenêutica, Jesus. Na ABU encontrei uma palavra que por muito esteve longe de minhas poesias: amizade.

Minha fé foi cultivada aqui dentro da universidade, deparei-me com grandes descobertas depois do meu primeiro CF (curso de férias da ABU) em Campos-RJ. Descobertas cristãs que contribuíram para o meu amadurecimento, após, já participei de mais alguns CFs, mas o primeiro foi meu ponto de partida, inclusive, minha primeira ceia. Nesses dias percebi que não caminhava apenas eu e Jesus, havia um Corpo espalhado pela face da terra, havia uma missão na qual resolvi aventurar-me.

Quando descobri esse mundo novo, desbravei, mas desencontrei-me diante de inconformidades. Após algumas leituras a vivências, desapontei-me com a igreja. Por algum tempo fui revoltado com a igreja e seus inúmeros equívocos. Hoje um pouco mais maduro, não deixo de criticar, mas também já não deixo de me envolver. Atualmente dou aula em algumas classes do ministério de ensino em minha igreja local. Quero servir de alguma forma, há desapontamentos que continuam , porém eles estimulam-me a tentar não repetir erros, ou caminhar para melhorar o que ainda está errado. Entendi que a igreja é imperfeita, apenos por ser um reflexo meu no espelho.

Ainda não sou um Super homem, há dias que ainda sinto depressão, as dúvidas ainda existem, todavia, sem abrir mão da certeza, posso afirmar: Fui surpreendido pela alegria. Hoje espero aprender a servir, encontrar novamente comigo mesmo, olhar no espelho, analisar o passado, viver o presente e correr esperançosamente para o futuro. Quero conhecer mais a Cristo até que ele faça parte inteiramente de mim, quero entender e me entregar a esse inexplicável amor e ofertá-lo sem reservas. Essa minha estranha e resumida história, fala apenas de um garoto surpreso diante de tanto amor. Uma espera de olhos fitos no horizonte. Uma alegria que ainda respira depois de um profundo mergulho na tristeza. Essa é uma simplória carta destinada a amigos. Desejo a Graça e Paz de Cristo e abraços meus ... do sempre amigo... Castro Lins

Fonte: Castrolins.blogspot.com