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ESPIRITUALIDADE E CAPES

ESPIRITUALIDADE E CAPES

É comum encontrar entre os estudantes universitários aqueles que caminham com uma
profunda desconfiança de que são os mais estúpidos indivíduos do mundo. Daí seguemse
duas posturas igualmente danosas. A primeira é que transformam sua sensação de
ignorância em prontidão à soberba. Aprendem um linguajar acadêmico raso e arrotam
teorias de modo taxativo, tornando-se insuportáveis, chatos pseudo-intelectuais do
segundo período acadêmico, donos da verdade, encastelados numa fortaleza de
arrogância, a fim de protegerem-se da mediocridade de sua autoimagem.
A outra possível postura é a daqueles que se calam e submetem-se a tudo mais. Pensam
que sempre nada tem a dizer, que estão sempre atrás, aquém do saber mais elevado, do
refinado conhecimento. São incapazes de discordar de seus professores, dos doutores e
mestrandos, são a sombra e massa de manobra dos articulistas do movimento estudantil,
são os que sempre sacodem a cabeça em confirmação ao que os outros estão dizendo,
afinal, os “outros” sempre leram muito mais do que estes.
Qual seria o fundamento desta autoimagem? Acredito que o salto qualitativo entre a
educação básica e a acadêmica seja uma dessas razões. Nos pré-vestibulares, somos
ensinados a decorar respostas e quando na academia somos convocados à pesquisa
(embora muitas vezes a lógica “decoreba” permaneça na universidade). Isto faz com
que se sintam papagaios num celeiro de gênios, o que certamente não é uma verdade.
Essa sensação se deve à mudança da estrutura do ensino, nada tem a ver com os
estudantes. Há, possivelmente, mais gênios no ensino básico que na universidade. Outro
fator é o tempo que se leva para produzir um trabalho que ninguém vai ler. O resultado
não é imediato. Por vezes, a pesquisa parece não avançar. E principalmente quando seu
curso não goza de reconhecimento social, as demais pessoas, familiares e amigos, te
veem “apenas” como um estudante. Um “mero” estudante aos 22 anos se sentirá inútil
socialmente. Outro fator já fora mencionado acima, e é essa sensação de que “estou
escrevendo algo para ninguém ler”. A CAPES pressiona o centro, que pressiona o
departamento, que pressiona os professores, que pressionam os orientandos, que
pressionam a si mesmos. Estes, ao produzirem qualquer baboseira, e verem isso ser
publicado, possuem a sensação de que sua principal atividade é inútil.
Sentindo-se fragilizado neste ambiente hostil, o estudante se lança em atividades que
pode realizar, de retorno imediato (e isso às vezes significa postagens no facebook;
deslizar a barra de rolagem por horas, etc.). Preenche a vida acadêmica em busca de
significado, realiza mil coisas, ocupa-se ao extremo. Encontra-se sempre fatigado,
moído, cheio de tarefas. Você os encontra pelo campus, às vezes, zanzando sem
propósito, em busca de um trabalho, uma atividade que lhe possa parecer significativa,
que possa ter algum propósito relevante, que lhe atribua algum significado. Por isso, vez
ou outra, alguns passam gritando a todos: “venham, vamos pular a roleta do restaurante
universitário”, sem que a isso tenham que acrescentar qualquer explicação. A
manifestação tornou-se um fim em si mesmo. Isto porque seu fim é justificar o
manifestante. Ele não é um Zé ninguém, é alguém que, naquele hostil ambiente, age
corajosamente contra as injustiças.
Para o cristão isso não é diferente. Temo que o ativismo missionário (e aqui não ouso
duvidar do que Deus realiza entre nós, mas de nossas próprias motivações, uma vez que
somos marcados pelo pecado), se deva em grande parte a essa sensação de inutilidade.
Isso explica o fato de encontrarmos pessoas extremamente tímidas, com pouquíssimo
conhecimento bíblico, e praticamente nenhuma rotina devocional, conduzindo grupos
de estudo e realizando eventos evangelísticos, anunciando poderosamente, quando em
bando, verdades duras e pouco dialogais, mas extremamente inseguros quando,
sozinhos, necessitam afirmar sua fé. O medo ao questionamento, ao diferente, e o
enrijecimento fundamentalista, se devem igualmente a essa autoimagem do estudante.
O que estou dizendo é que a fé desses encontra sua força na aglomeração de pessoas, e
não na simplicidade corajosa dos dois ou três reunidos em nome de Jesus. A
proclamação do Evangelho se dá não pela honrosa comissão a que fomos convocados
pelo Deus que consumara a obra redentora dos homens, e por fim outorgou-nos sua
proclamação para que Dele fôssemos cooperadores, mas pelo constrangimento psíquico,
pelo mal-estar que lhes impulsiona a ter que fazer algo útil (para Deus? Para os
homens? Para si?).
O problema é que os bolsistas não recebem suas bolsas para fazerem missão. Os
graduandos não recebem seus diplomas por terem organizado cultos universitários. E
desse modo, ao se voltarem para o famigerado mundo profissional, sentem-se num
vácuo, como profissionais incapacitados. Daí a crise dos que deixam o movimento
estudantil cristão, em decorrência do fim da graduação. Por não terem construído uma
relação saudável com uma igreja local durante a graduação, e terem agora seu ministério
chegando ao fim junto com o fim da graduação, e por não serem nem profissionais
qualificados, nem missionários de fato, temem e se angustiam com seu futuro.
Permanecem em busca de seu lugar no mundo, o que tentaram durante toda a
graduação, sem êxito.
Por fim, gostaria de sugerir alguns cuidados para que não sejamos sufocados deste
modo, para que desenvolvamos uma espiritualidade sadia. Em primeiro lugar, cuide
para que nada faça por constrangimento, antes, seja fiel Àquele que te chamou.
Compreenda o chamado de Cristo e realize tudo em obediência a Ele. O discipulado só
existe para aqueles que ouvem a voz do Bom Pastor.
Não permita que seja a CAPES a valorar seu trabalho, lembre-se que Aquele que nos
assenhoreia está no Céu. Seu mandato cultural é o fundamento para pensarmos nossa
vida acadêmica. Nossas pesquisas não devem servir às regras do mercado, mas ao
desenvolvimento daquilo que Deus nos concedeu. Não são inúteis suas horas naquele
laboratório ou núcleo de estudo, todo o trabalho no Senhor será aproveitado.
Não tema as angústias do futuro, a cada dia bastará seu próprio mal. Realize o que
estiver à seu alcance hoje, abandone o futuro Àquele a quem ele pertence. Você é o que
pode ser. Não se iluda, ninguém escreve uma dissertação de um dia para ou outro. Não
persiga modelos idolátricos de sucesso, pois não é para isso que fomos chamados.
E por fim, não administre seu tempo e inteligência de forma tola. Você é responsável
pela porção intelectual que Deus lhe concedeu e pelo tempo que Ele lhe concedeu. Se
organize e estude.
NOSSO DEUS ESTÁ EM MISSÃO. AVANTE.
Gustavo Marchetti Corrêa Carneiro
2º Coordenador da Região Leste

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