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O jovem universitário e sua igreja local: descompassos e acertos

Reflexões de um abeuense

Por Gustavo Marchetti Corrêa Carneiro, 1º Coordenador da Região Leste

É muito comum na missão estudantil encontrarmo-nos com jovens que ao entrarem na universidade passam a experimentar um descompasso em relação a sua congregação local. Esse descompasso se dá por alguns motivos.

O primeiro é o cultural. O ambiente aberto e múltiplo no qual agora se inserem distingue-se em muito do (muitas vezes) fechado e homogêneo de sua igreja local. A liberdade vivida no ambiente acadêmico supera aquela prometida nos cultos jovens com cantores da moda. Um mundo novo se abre diante de seus olhos e a mente passa a “se abrir”. Como consequência, alguns jovens começam a enxergar os dois espaços como em oposição permanente; “mentes abertas” contra “mentes fechadas”, “verdades plurais” contra “dogmatismo”, “liberdade no exercício da espiritualidade individual” contra “fé institucionalizada”.

Essa mudança de perspectiva aos poucos modifica sua espiritualidade. Cai, para o jovem, o valor da participação no culto público, o valor dos dogmas, o valor da Bíblia, e resta somente essa coisa amorfa, sobre a qual todo mundo fala e ninguém sabe bem o que é: “o amor”. Esse é preenchido por termos como “tolerância” e “ausência de preconceitos” ou por seu caráter “não discriminador”. Desse modo, qualquer tipo de posição ética que não discrimine (nem coisas, nem pessoas), que tudo tolere e “não rotule”, é permeada do “amor verdadeiro”, e, portanto, constitui aquela “verdadeira religião” da qual Jesus falava (aos adeptos dessa perspectiva, peço que perdoem a utilização de um termo que lhes pareça tão violento e pesado como “religião”). Assim, muitos jovens passam a ser adeptos de um pseudoecumenismo religioso, no qual cabe tudo menos o cristianismo (essa coisa horrenda que criou todos os males da sociedade).

Ironias à parte, a perda desses jovens se deve em muito ao péssimo discipulado em nossas igrejas. Por temer a diferença e pela preguiça ao fazer frente e dar respostas bíblicas às questões atuais, por ter batido em retirada, deixando o mundo à sua própria danação, enviamos nossos jovens como ovelhas ao matadouro, sem oferecer-lhes companhia. A capacidade imaginativa do ambiente acadêmico, e as preocupações dessa instituição são maiores que a encontrada nas igrejas atualmente.

Outro motivo é de ordem ética e intelectual. O jovem se vê em busca de manter sua integridade intelectual e prática, diante daquilo que tem recebido do Senhor no período de formação superior. Como atuante na ABUB, vejo que muitos, por participarem dos espaços formativos da instituição e lidarem com as questões de grupos advindos de outros setores da sociedade, desenvolvem pelo menos três práticas que conflitam com as vividas em suas igrejas locais:

- Eles passam a ler a Bíblia, a estudar sistematicamente as Escrituras e a ler livros e comentários bíblicos. Para muitos jovens, nascidos e criados em ambientes religiosos cristãos, a entrada na ABUB representa, incrivelmente, seu primeiro contato direto com as Escrituras.

- Eles passam a comungar com pessoas de outras denominações cristãs. Desse modo, muitos jovens passam a descobrir que o cristianismo é maior que sua igreja local e passam a exercer uma ação missionária interdenominacional, em torno da Palavra, admitindo a diferença das formas no seguimento de Jesus e prezando pela unidade, o que pode lhe parecer impensável em sua igreja.

- Eles passam a ouvir o mundo, de modo que o diálogo com as questões contemporâneas, surgidas tanto da necessidade de aplicação em seus estudos bíblicos, quanto das necessidades de outros grupos que circulam a universidade torna-se imprescindível.  Os jovens universitários são forçados a encarar questões das quais suas igrejas muitas vezes se esquivam.

Já conversei inúmeras vezes com jovens frustrados por encontrarem em suas igrejas mensagens de autoajuda no lugar da Palavra, e uma obsessão ministerial, certa síndrome de grandeza, no lugar da ação missionária, o que contribui para o sectarismo e a uniformidade. Tento sempre animá-los a permanecerem em suas igrejas, mesmo reconhecendo o desafio. Não ignoro que precisamos de reformas, e não aposto todas as minhas fichas de que isso ocorrerá por meio e por conta dos universitários, mas sem dúvida não se dará sem eles.

Desejo ver jovens estudantes que sejam bíblicos em suas reflexões, que lutem pela unidade da igreja e que encarem de frente as questões de nosso tempo. Sei que para que estes jovens mantenham a sanidade espiritual, deverão encontrar comunidades locais que desejem o mesmo. Partindo das duas pontas, será possível produzir um discipulado integrado e um discípulo inteiro (alguns se dicotomizam, com a cabeça são bíblicos, mas não encontram comunidades bíblicas nas quais congregar, e, com o tempo, desfalecem). Discipular um jovem universitário irá exigir zelo por sua integridade intelectual e prática, de modo que o que ele pensa e o que vive sejam consonantes. Mas isso não é nada demais, embora tenha características particulares, pois é o que se espera de todo cristão.

Por isso resta o apelo a que jovens estudantes frequentem igrejas locais, e, quando cientes do descompasso, se esforcem por integrar conhecimento e vida em sua comunidade (servir é sempre a primeira opção, não sair). Sejam bons administradores dos recursos que lhes têm sido outorgados. E ainda, às igrejas locais, que escutem e se preocupem com a formação desses estudantes, instruindo-lhes pela Palavra, e submetendo-se à voz de nosso Senhor (servir é sempre a primeira opção, não deixar sair). Que sejamos fiéis a Deus em todo tempo.

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