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Boletim Literário: Chamados para casa?

Quinto boletim literário da ABUB Minas Gerais.

O boletim literário, tem por objetivo incentivar a literatura e a arte na região. Será publicado mensalmente no site e divulgado no Instagram, contendo resenhas e demais produções artísticas, reflexões e outros materiais de estudantes e profissionais do movimento. Este é um espaço feito para todas e todos. Entendemos que a arte também é uma manifestação do evangelho e que se somos feitos a imagem do Criador, somos chamados para a criatividade.

Neste mês, a Kedma e o Abraão Filipe, da ABU Viçosa, transmitem, através da arte, a indignação, confusão e principalmente, a esperança em Cristo dessa volta pra uma casa de muros caídos:

AVISO PRÉVIO (OU UMA PRÉ-RECLAMAÇÃO)

 Miniconto escrito por Abraão Filipe

Por aqui, estamos todos de mudança. Não deu tempo preparar as malas... Ao mesmo tempo, é curioso. Tenho a sensação que não estou saindo do lugar. Que viagem estranha! Passa um dia, chega outro, é tudo igual. Continuo dentro de casa. E em uma porção de outros lugares. Simultaneamente, em muitos locais e lugar algum. Fui convidado, à força, a passar por mudanças.

  Acontece que as notícias não são animadoras. E dia após dia, da minha janela, vejo corpos sendo empilhados, por inúmeros motivos. De vez em quando, o luto me dá um susto. Ele me persegue, aqui dentro. Morte atrás de morte. Injustiça atrás de injustiça. Luto na frente de tudo. Seria bem mais cômodo rasgar os últimos obituários que jogaram na minha porta. Mas eu não posso, tenho a necessidade de lê-los. Um turbilhão de pensamentos me tomam. No meio disso tudo, que silêncio eu estou ouvindo?! Ou que voz não estou ouvindo?!

Esses dias eu não aguentei. Foi lá na casa do vizinho. Onde está seu irmão? Onde está seu irmão? Onde está seu irmão? — repetia a Voz. Onde está Abel? O vizinho estava frio e imperturbável. Respondeu que não sabia. “Por acaso sou responsável por meu irmão?”. Aquelas palavras me doíam. Só eu ouvia o sangue gritando? Só eu escutava o clamor nu e cru que o solo fazia? Não foi fácil. Não tinha respostas.

Eu sei que todo mundo recebe notícia ruim, mas há muitas formas de reagir. Preferi me inspirar no vizinho da frente. Fui levado lá pro palácio. Aquele homem não precisava, ele não tinha obrigação. Mas ele sentiu, se deixou ser afetado, ser tocado pela dor. Estava em terra estranha e se sensibilizou com a morte. Ele parou, chorou e orou, em profunda contrição; sem disfarçar a tristeza. Mas se posicionou. Aquele copeiro se levantou como quem sabia a qual Rei devia dar satisfação. Afinal, o luto é uma trilha que nos aproximar do Autor da Vida.

Voltei pro meu quarto. Me deu saudade do Éden. Caim ou Neemias: que exemplo eu seguiria?! Na hora, tocaram minha campainha. Era Alguém lembrando que eu era carta. Carta viva, com perfume de Vida, aroma de Amor. Precisava me levantar, me erguer em Esperança, e responder ao chamado para reconstruir muros, reparar brechas, refazer pontes futuras. O que só é possível por causa dAquele que venceu a morte. Sem medo. Toda essa saudade do Céu me empurra para o hoje, para o agora, para uma missão: ser um agente da reconciliação. Eu estava dentro de casa. Mas voltei pra Casa perdida. Essas palavras não saiam da minha memória fendida: “Finalmente, foi a morte derrotada pela Vida! Ó morte, não está agora vencida? Ó morte, quem temerá a que era temida?"

 

RECLAMAÇÃO

por Kedma Julia


Eu ando com a menor vontade de viver 

Sem fome, sem sede 

Os desejos andam quietos e calados 

Não sei quando tudo me escapou 

Quando as preocupações roubaram o peso da poesia que mantinha minha alma suspensa 

Sem tocar o chão

Lá fora as formigas andam

As borboletas voam e certos insetos jogam no vento o pólen das flores 

Eu continuo no agir mecânico do tecer palavras

Implorando ao lápis que ele não deixe que eu mesma vire madeira 

Meu Deus meu Pai 

Tu me abandonastes?

Se sabia que eu não era nem homem ao certo

Se sabia que eu só era fraco

Ó, venha com tua esperança indecente! (pois não respeita as normas de etiqueta) 

Me encha da fome do Reino das almas 

O Senhor para quem o mundo gira

Dinâmico espetaculoso

Me alinha das coisas que dizem que Deus é amor 

E amor move 

Move como as ondas geladas do inverno paulistano

Move gracioso e violento

Me congele também

Me arrepie também

Me coloca junto dos santos outra vez 

Que giram o mundo

(por Kedma Júlia: Estava com essa imagem na mente há dias. Nesse período de luto coletivo, me lembrei do papel que o próprio luto desempenhou na minha vida. Foi por meio da morte do meu pai, que Cristo me alcançou com Sua graça. A imagem de uma rosa brotando de cinzas, me fez lembrar que mesmo na dor, pode haver beleza. Cristo está lá também. Cristo faz coisas bonitas nascerem da desesperança. Que Ele nos ajude (mais uma vez) agora. Amém.)

 

É da região Minas Gerais? Deseja participar? Entre em contato com a secretaria de Comunicação e Literatura e mande sua arte para a gente!

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