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Sobre ser pai

Jônatas Souza de Abreu, Bibliotecário Documentalista/UFRN e Mestre em Ciência da Informação/UFPE, serviu na ABUB Nordeste em Natal, Recife e Garanhuns. Hoje, dia dos pais, abre o coração e nos fala do aprendizado que a paternidade tem trazido.

 

Cinco coisas +1 que eu aprendi com a paternidade

Houve um tempo (e certamente ainda há) em que só era considerado “homem” quem não chorasse. Meninos sempre foram chamados à masculinidade num momento de desespero ou de decepção sob as seguintes palavras: “Pare de chorar feito uma mulherzinha. Homem não chora”. Da mesma maneira, homens nunca brincaram/brincam de bonecas, nunca cuidam de uma casa com uma amiguinha, nunca se preocupam em fazer serviços domésticos porque as suas prioridades, segundo a mãe ou o pai, são as do estudo e do trabalho.
É impressionante nessas histórias comuns a quantidade de homens (cristãos ou não) que são surpreendidos na vida pela paternidade. Um dia, suas respectivas esposas (mas algumas vezes somente namoradas ou companheiras) dão a notícia mais pasmável que existe, à exceção das notícias de falecimento de um ente querido: “Estou grávida!”.
E por mais esperado (e cobrado) que seja o filho, essa notícia sempre nos pegará de surpresa, seja porque não fomos preparados para a profundidade da paternidade/paternagem na nossa infância, seja porque a realidade da paternidade nos remete à ideia da criação e do Deus criador e doador da vida, e nós nunca pensamos nisso.
Sou pai recente. Casei-me em 2012. Meu primeiro filho nasceu em 2016. Estamos em 2018 e no dia seguinte ao meu aniversário, minha esposa me acordou com a belíssima notícia de que eu seria pai. Mas, dessa vez, de uma garotinha, uma filha!
Até o nascimento dele, meu primeiro filho, foram-se quatro anos de grande e profundo aprendizado com a minha esposa. Divisão da cama, das contas, da mesa, da vida comum, dos problemas, das alegrias e decepções em uma intensidade única (e aguardada). Mas até aquele momento, não tínhamos filhos.
Lembro-me de quando comecei a pensar nessa realidade; sequer havia saído de casa e talvez mais do que casar, sempre quis ser pai (e minha mãe tem uma grande parcela de “culpa” nisso, por mais incrível e contraditório que isso possa parecer). Sempre tive a ideia de que seria pai, de alguma maneira, mesmo que fosse solteiro e de um filho adotivo.
Em 2016, mais precisamente em 23 de abril, meu filho nasceu, de um parto cesáreo que eu fiz questão de assistir.
A intensidade do aprendizado mudou; aprofundou! E pela primeira vez na vida, com ele nos meus braços, me vi diante do paradoxo que está entre amar e cuidar da minha “metade sagrada”, agora mãe, bem como do indefeso fruto do nosso amor e não saber como, sequer por onde começar. Como administrar a agenda, as emoções, o dinheiro, para que nada os falte e ainda assim, nesse turbilhão de emoções, administrar a minha própria vida com Deus.
Nesses últimos anos, tenho aprendido algumas coisas, muitas delas sob o manto da alegria e da ternura, outras tantas sob a rigorosa mão da disciplina do tempo e correção divina.
Se me permitir, gostaria de compartilhar algumas dessas lições que tenho aprendido até aqui. 

1.Ser pai está para além das minhas forças (e sempre estará)

 Aprendi que ser pai é responder a um chamado divino, estabelecido na criação pelo próprio Deus. Isso significa entender que Deus não é somente o “Criador” de todas as coisas, mas também sustentador das mesmas. E, de igual maneira, que ele não é somente o “Criador do casamento”, mas o idealizador e sustentador da família como ente que expressa a completude e a magnitude dos seus próprios atributos.

O relato de Gênesis 1 me ensina que Deus cria o gênero humano à sua imagem e semelhança, cria homem e mulher e logo em seguida abençoa-os. Cria homem e mulher não para o deleite neles mesmos como o fim principal, mas com a ordem de frutificarem, assim como a própria criação geral, e serem mordomos da terra que ele lhes havia dado. Ele mesmo dá a essa família abençoada e multiplicada um fim último, que é glorificar o seu nome.

Ao contemplar essa ação criadora de Deus, não consigo conceber a possibilidade de como pai eu me guiar a mim mesmo, justamente porque a tarefa dada pelo próprio Deus só poderá ser plenamente sustentada pelo próprio Deus, a despeito das tamanhas falhas que tenhamos, marcas indeléveis da queda. Em Deus nós somos chamados à paternidade, e por ele mesmo ensinados dia a dia na relação com seu filho, Jesus, e ainda corrigidos em amor quando falhamos como seus filhos e mordomos. Nesse processo, descubro em Deus toda a potência e sapiência para o bom exercício da paternidade (Tg 1.5), e como qualquer filho, se quisermos ser bons pais, devemos estar na dependência completa dele.

2.Minha esposa é parte fundamental nesse processo

Quando eu compreendo o meu chamado “externo” como pai, e este estando completamente fora do meu alcance para ser bem executado, sou obrigado a compreender o papel fundamental da minha esposa no processo.

Mais do que isso: vejo que a minha função somente será bem executada se a estrutura do meu lar remeter à própria relação de Cristo com a sua noiva, o que requer de mim ir mais além de uma preocupação em fazer minha esposa feliz.

Faz parte do meu mandato amar, cuidar e entregar a minha vida por ela como Cristo o fez (Ef. 5:25), e assim, dando testemunho do evangelho ao meu filho, a partir da minha própria vivência (Ef. 6.1-4); ou por assim dizer, cortando na minha própria carne.

E cabe a mim também entender que o papel de “auxiliadora idônea” não a faz uma mera coadjuvante na família, mas dá a ela um protagonismo tão grande que sem ela, (e isso pensando somente numa parcela da sua grande contribuição nesse construto) seria impossível “traduzir” a história da salvação para o meu filho, ou aquilo que os teólogos chamam de “união mística entre Cristo e a Igreja”.

Através da minha aliança com ela, traduzo diariamente aos olhos dos meus pequenos a aliança eterna de Deus com Cristo para salvação dos homens na cruz. Através da minha aliança com ela, transmito aos meus próprios filhos os “encargos” que eu tenho com ela [e com eles], e que o próprio Filho de Deus tem com a Igreja: de apresentá-la pura e sem mácula diante de Deus (Ef 1.4; 5.27; Col 1:22).

3.Para além da identidade genética e geracional, sou mordomo dos meus filhos como bens que Deus nos deu

Somente quando compreendo meu chamado como impossível de responder plenamente sem que Deus me sustente e como impraticável sem entender o testemunho e a realidade da redenção expressa no meu casamento, consigo entender que dentro das minhas funções e possibilidades, bem como minha esposa, sou posto como mordomo dos meus filhos.

Eles são chamados por Deus de “sua herança” (Sl 127.3)! E como bens concedidos aos seus filhos, é minha tarefa enquanto pai estabelecer maneiras de educá-los e guiá-los na Lei do Senhor (Sl 1.2; Js 1.8). Isso vai bem além de estabelecer limites socialmente responsáveis para as atitudes deles; trata-se de guiar a minha vida e a deles à fé em Cristo e sob os padrões das escrituras para que eles sejam primeiramente encontrados diante de Deus como santos. Todo o esquema proveniente (boas maneiras e educação formal, inclusive) virá a ser “cereja no bolo” daquilo que eu devo ensinar diariamente a eles (Dt 6.4-9), andando, conversando, brincando, lendo, assistindo TV, dando banho, bagunçando e etc.

Tenho aprendido que a menos que Deus esteja em tudo em primeiro lugar na nossa relação, por mais amoroso que eu seja, nada restará de mim que não seja o mero “amor”, e este compreendido como algo sem fundamento e sem valor. E uma vez que eu tente viver em família como se Deus não existisse, dificilmente meus próprios pecados serão perdoados e encobertos pela graça e misericórdia encontradas na família.

4.Ser pai exige sacrifícios de sonhos, projetos e (muitas) noites de sono

Quando me tornei esposo, aprendi que minha vida não seria mais minha. Não que eu não soubesse disso antes de casar; são palavras do próprio apóstolo. Mas o casamento tornou mais evidente essa verdade. Não é somente minha a minha própria vida. 

Quando me tornei pai, descobri uma dimensão ainda maior dessa exigência: de uma noite completa de 8 horas de sono, sem interrupções que não sejam naturais, às saídas a bons restaurantes, acesso a boas bebidas e café, comprar livros novos ou pedais de guitarra, períodos prolongados de estudo sem suspensões, tudo isso exigiu um “remolde” ou sacrifícios.

Pais de crianças pequenas sabem quão preciosos podem ser 10 minutos a mais na cama depois de uma noite em guarda porque o filho está com febre alta, ou a esposa está doente. Implacavelmente o despertador toca pela manhã para levantar e ir trabalhar, mesmo que isso esteja acompanhado de sonolência o dia inteiro e exaustão durante a noite.

Quando me tornei pai, descobri que, independente do meu cansaço (que pode ser tamanho, muitas vezes) as minhas atividades e atribuições permanecem como pastor do coração da minha esposa e dos meus filhos. E isso vai permanecer até o dia em que eu for recolhido a Deus, ou com menos intensidade, quando eles “baterem as asas”. Isso me lembra que Deus trabalha o tempo todo (Jo 5.17), e que o descanso que eu necessito, só poderei encontrar plenamente nele.

5.Mesmo que eu seja o pai e esposo mais excelente, a salvação dos meus filhos depende exclusivamente de Deus

Aqui mora a mais dolorida e longa lição que eu tenho aprendido (e esse processo durará anos) como esposo e, agora, pai.

Tenho aprendido a viver sob a tensão que vi meus pais viverem comigo e com meus irmãos e que, acredito, todo o pai crente deva viver. Por mais que eu ame minha esposa e meus filhos com o maior amor do mundo, ainda assim não poderei dar a eles aquilo que eles podem ter de mais precioso: a salvação em Cristo.

Ainda que o meu exemplo seja o melhor possivelmente encontrado na face da terra, que a mãe deles seja a esposa mais feliz do mundo e que eles sejam as crianças mais realizadas que se conheceu, ainda assim, tudo isso será nada se eles não tiverem consciência da existência real de Deus, da obra de Cristo e se não forem habitados pelo Espírito Santo.  

Por mais que eu os leve à igreja, ensine em casa e na rua sobre Deus e como serem homem e mulher dignos do evangelho, se Deus não salvar as suas almas, nada disso será válido. Como pai, aprendi a viver nessa “crise”: ao mesmo tempo em que sou chamado a pregar para eles sobre Cristo, sou inevitavelmente instado a orar pela salvação deles. E isso em vários momentos do dia, quando me lembro da face dele, ou me lembro das batidas do coraçãozinho da que ainda não nasceu.

Como pai, eu tenho aprendido arduamente que meus maiores esforços para ser o melhor pai possível serão comparados a nada se meus filhos não puderem ver a gravidade dos seus pecados e o justo amor e desprendimento do próprio Deus em ter dado seu Filho único em favor dos pecados deles.

Como pai, tenho entendido e sentido, já desde agora, o porquê de Jó ter sido tão zeloso com seus próprios filhos: “Terminado um período de banquetes, Jó mandava chamá-los e fazia com que se purificassem. De madrugada ele oferecia um holocausto em favor de cada um deles, pois pensava: 'Talvez os meus filhos tenham lá no íntimo pecado e amaldiçoado a Deus'” (Jó 1.5).

Como pai, ainda que eu não possa garantir a salvação dos meus filhos, sou responsável por santificá-los e apresentá-los ao Senhor, de maneira oposta ao que fez Eli com seus filhos.

Como pai, descobri que devo andar sob a dependência de Deus em tudo, inclusive no que diz respeito à salvação dos meus filhos em Cristo Jesus, em primeiro lugar, porque  não fui eu que morreu pela salvação de qualquer que seja, nem mesmo pela minha; em segundo lugar, porque a salvação pertence ao Senhor (Jn 2.9); em terceiro, porque a regeneração é uma benção da redenção adquirida única e exclusivamente por Cristo para aqueles a quem Deus-Pai os deu (1 Pedro 1:3; João 6:37-39) e que comunica o poder de Deus à alma pecaminosa pelo qual ela pode responder de maneira eficaz ao chamado do evangelho (Jo 1.13).

5+1. Ser pai me incutiu a ideia de que o tempo é curto

Há coisas que se aprende realmente quando se é pai. E uma outra coisa que eu aprendi foi que ter meu tempo em casa, em família e com ele é algo extremamente importante.

Com meu filho eu tenho dividido alguns prazeres da vida e vê-lo crescer, ao mesmo tempo que me dá prazer, traz uma saudade de meses atrás quando sequer falava.

Com meu filho eu faço festa, assisto shows de música, leio e toco guitarra. Aos poucos temos sentido que, apesar de fazermos essas coisas juntos, suas próprias decisões estão sendo tomadas: seu gosto pela música, pelos livros, suas afeições às brincadeiras de imitação e faz de conta e tudo isso tem sido maravilhoso. Se nem tudo são flores, algumas birras acontecem para me lembrar do quanto ele, assim como eu, é um pecador; que como pai, estou num processo de ensino e disciplina, ao mesmo tempo em que sou conduzido por Deus em processo semelhante.

E sim, a despeito disso, cada dia que passa, vejo como investir tempo com ele nos faz próximos e que, de maneira igualmente proporcional, nos tornamos amigos.

Quanto mais tempo passamos juntos, meu filho e eu, maior a nossa “comunhão”; mais eu o conheço, e ele a mim; mais entendo ele e vice-versa.

Estar com meu filho, além de ser maravilhoso, lúdico, curador para a minha própria história com a minha infância, me fez ter um senso de eternidade que eu nunca tive antes. Conversava hoje, dia dos pais, com um bom amigo sobre como pode ser maravilhoso ser pai, ao mesmo tempo em que isso gera em nós uma tamanha responsabilidade e ele sabiamente me apontou um pensamento que convergia tudo que eu escrevi até aqui: Na eternidade, Deus soberanamente controlando todas as coisas, já era pai! Em Deus reside uma paternidade anterior ao nosso chamamento e conhecimento sobre o que é ser pai. Por esse motivo, ao mesmo tempo em que nos chama a sermos pais semelhantemente a Ele, nos capacita, por Sua [única e exclusiva] graça, através do aprendizado diário em família e dos meios públicos e particulares de graça ao nosso alcance.

Tenho aprendido a cada dia que meu trabalho é importante, para a glória de Deus (e eu amo meu trabalho), mas que isso se torna num conceito abstrato e idólatra se esse trabalho se torna mais importante que Ele mesmo, ou minha família.

Tenho aprendido com meu filho de que preciso de comunhão com Deus, não somente para “não pecar”, o que em si já é algo importante; mas isoladamente, a noção de “não pecar”, separada das virtudes de Deus, e do amor a ele, dá margens à justiça própria, como se eu não pecasse porque sou melhor do que o “publicano que não ora e nem jejua”. Inversamente, preciso de tempo com Deus porque nesse processo, nos tornamos mais íntimos.

Porque quanto mais tempo tenho com ele, melhor eu conheço a vontade do meu Senhor e mestre, e entendo mais acuradamente que antes da fundação do mundo, ele havia separado e purificado no tempo e na história um povo exclusivamente seu, através da doação de si mesmo em Cristo Jesus, um povo “zeloso de boas obras” às quais ele mesmo já havia preparado e chamado a elas.

Em todas essas coisas, também aprendi que como pai, sou filho amado de Deus e que, como tal, nada no mundo poderá nos separar dele; também que no exercício do meu chamado, devo louvá-lo assim como fez o apóstolo Paulo “Ó profundidade da riqueza da sabedoria e do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e inescrutáveis os seus caminhos! Quem conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro? Quem primeiro lhe deu, para que ele o recompense? Pois dele, por ele e para ele são todas as coisas. A ele seja a glória para sempre! Amém” (Romanos 11:33-36).