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Campanha de Oração NE: O compromisso com nossas crianças

“Clarice, posso te dar um abraço?” Às vezes ela diz sim, às vezes ela já responde abraçando. Me revezo entre perguntar se eu posso e perguntar se ela quer. Até então ela só tem respondido afirmativamente, mas confesso que tô empolgada para receber um não. Clarice é a filha de quase três anos da Vivian e do Josué (Caps, para os abuenses), que estão me acompanhando em mentoria no programa Siga-me da ABUB esse ano. Sempre que eu a vejo, fofa do jeito que ela é, tenho uma vontade enorme de apertá-la ou pegá-la no colo. Mas faço questão de antes perguntá-la se ela me permite expressar meu afeto por meio do toque. E veja só… Isso sou eu com a melhor das intenções, eu adoro essa baixinha!

Mas (e justamente por amá-la) antes de mim eu ponho ela. É mais importante que ela saiba que não tem obrigação de me dar um abraço; que ela tem o controle sobre o corpo dela; que eu não posso decidir por nós duas quando e como vamos demonstrar o afeto que temos. Eu posso esperar um pouquinho para receber o abraço, enquanto ela pensa e depois diz sim, e vou ficar bem caso ela diga não. Nem sempre queremos ser tocados, e queremos ser respeitados nessa escolha, então por que não respeitar as crianças também? Por elas serem crianças? 

As crianças foram feitas à imagem de Deus. Deus nos criou com dignidade, e nos ordena a respeitá-la. Já nascemos com uma dignidade a ser respeitada! Deus nos criou de forma a termos todas as fases: infância, juventude, idade adulta, velhice. Deus viu graça em fazer assim. Deus viu que era bom. Sua imagem é refletida em cada uma dessas fasese quando não reconhecemos isso, ou negligenciamos isso, estamos desrespeitando o próprio Deus, autor dessa criação. Toda ofensa, violência, negligência e crueldade praticadas contra uma criança é um ataque à parte da criação que mais se parece com Deus (e em sua forma mais vulnerável!), e portanto um ataque ao próprio Deus. 

A criança possui complexidade, sentimentos, emoções, percepções e limitações próprias. Mas é recorrente isso ser negligenciado ou explorado. Ou é algo que não importa, ou é algo do qual se pode tirar proveito. Não devemos subestimar a capacidade das nossas crianças, mas devemos protegê-las em sua vulnerabilidade. O nosso dever é propiciar um ambiente seguro para elas se desenvolverem. Ouvi-las e ter zelo por suas emoções. Lembre-se de que elas não têm o conhecimento, experiências, e às vezes habilidade comunicacional que nós temos! A elas, devemos nossa paciência. Temos de quebrar essa ideia de que criança precisa menos do que o adulto; que valem menos; que podem (e devem) se contentar com menos. Somos tão exigentes com nosso próprio bem estar... 

Temos que zelar ainda mais pelo bem estar das crianças, porque elas não podem zelar sozinhas por elas mesmas. Temos que reconhecer nossa posição de responsabilidade em relação a posição de vulnerabilidade delas. Isso é louvar a criação de Deus exatamente como Ele a fez.

E é isto: somos responsáveis pelas nossas crianças. E todas as crianças são nossas crianças. Tem um provérbio africano muito popular, que numa tradução livre fica mais ou menos assim “É preciso uma comunidade inteira para criar uma criança”. Se você não é pai ou mãe, não se preocupe, esse texto é para ti também. É problema seu sim. A criação de uma criança não é responsabilidade só dos pais. Se a criança tem só os pais cuidando dela, ela está desprotegida. Toda a comunidade a qual ela pertence deve zelar por sua segurança e bem estar. Todos devem estar empenhados em interagir com o universo infantil de maneira saudável para que a criança se desenvolva livremente. Por isso devemos nos reorientar a fim de ter um mundo preocupado com isto. Nosso dever como cristãos é lutar e ajudar a construir uma estrutura que defenda os pequeninos.

Para isso, engaje-se com o universo infantil! Precisamos orar pelos pequeninos, e assim como todas as coisas, quanto mais soubermos sobre esse tema, melhor saberemos o que e como pedir a Deus. Para ajudá-las, precisamos saber quais são os incentivos e quais são as ameaças. Saber como prevenir e intervir. Nós vivemos num mundo cruel, caído. É nossa missão lutar contra as injustiças e desigualdades que vêm da perversão humana. Para lutar, temos que nos preparar adequadamente e fazer o uso correto das ferramentas certas. Então leia, pesquise, siga um instagram que fale desse tema, converse com pais, professores, psicólogos infantis. Devemos nos instruir para então instruir as crianças. Também precisamos ensiná-las sobre a dignidade que elas têm; do amor que Deus tem por elas; e o lugar delas nesse mundo, havendo coisas que não cabem a elas e não podem ser exigidas delas. Mergulhe no universo infantil, conheça-o! 

Compartilhe o que sabe e oriente outras pessoas, a fim de todos construirmos essa rede de proteção aos pequenos. Você não precisa “levar jeito” com crianças para assegurar o bem estar delas. Faça sua parte, porque você tem a sua parte nisso. 

Na Constituição Federal Brasileira, há o reconhecimento da necessidade desse cuidado coletivo e especial para a criança, justamente por ser uma etapa de grande vulnerabilidade e alto desenvolvimento do ser humano. Você sabe um tanto disso pela sua própria experiência. A forma como o mundo interage conosco na infância vai definir muito sobre como nós iremos interagir com o mundo mais tarde. Nosso potencial é desenvolvido ou podado. Nossa experiência enquanto crianças vai influenciar como lidaremos com relacionamentos, expectativas, autoestima.

Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.

Infelizmente lidamos com uma realidade que vastamente viola tudo isso. Há exploração, abusos, negligências… É uma infância de perdas. Exploram os pequenos por meio do trabalho infantil, por exemplo. Ora, Deus diz que há um tempo certo para cada propósito debaixo do céu. Infância não é tempo de trabalhar. Não é porque conseguem trabalhar que devem. O trabalho na infância exige capacidades adultas, aproveitando-se da fragilidade infantil. O trabalho na idade correta (em condições saudáveis) traz benefícios, porque demanda e desenvolve capacidades já existentes. O trabalho infantil, por outro lado, compromete o desenvolvimento de capacidades a serem adquiridas, no plano físico, intelectual e psicológico. As crianças também estão sofrendo pelo abuso sexual infantil, que só se perpetua conforme não se fala sobre isso. Deus também definiu o momento para a maturidade sexual humana, que é acompanhada de maturidade psicológica e física. A criança não tem nenhuma das maturidades necessárias, e há quem se aproveite disso. É um crime contra a criação de Deus. Ainda, são injustamente penalizadas com o abandono. Aqui tem todo um problema estrutural que deve também ser pensado, de orientação, prevenção e planejamento familiar - coisas que precisam vir antes. Mas agora vamos focar nas crianças. Elas existem e não podem ser negligenciadas, sobretudo porque não podem cuidar de si mesmas.

A grande questão é sempre a vulnerabilidade do ser humano nesse momento da vida, que se os não vulneráveis (e portanto responsáveis!) não cuidarem, vão ocasionando dores, desequilíbrios, disfunções, doenças.

A igreja tem um papel fundamental na luta contra o sofrimento infantil. Tanto como corpo, como instituição. Nossa fé nos ordena a cuidar do nosso próximo, principalmente dos vulneráveis, porque isso é amar. Por meio de Tiago 1.27 (NVI) Deus nos diz que a verdadeira religião, que O agrada, é a que cuida dos necessitados e desamparados que sofrem, e não compactua com a corrupção do mundo. As crianças precisam de nós. Nossa fé, cujo fundamento é o amor divino (abnegado, expansivo), deve nos mover ao engajamento com a causa infantil. Deus quer que cuidemos dos pequeninos dele. Por isso, a igreja tem que serum espaço que converse sobre isso, organize ações voltadas a isso e principalmente alimente essa consciência de que é o nosso dever fazer tudo isso, porque isso é bíblico. 

Então, novamente, engaje-se! As crianças que estão no seu convívio também estão sobre o seu cuidado. Você tem responsabilidade por elas. As crianças que estão distantes e sofrendo para que você tenha algum produto também são sua responsabilidade. As crianças de todo o mundo são responsabilidade de todos nós.

A verdadeira religião não compactua com a corrupção deste mundo. Procure saber sobre as origens da sua comida, das suas roupas, de tudo que você consome. Há trabalho infantil? A verdadeira religião não compactua. O verdadeiro cristão boicota e denuncia. Você pode pensar além também! Que tal ser fundador(a) de um orfanato? Trabalhar ou começar uma ONG para crianças vítimas de abuso sexual infantil? Levante campanhas! Aponte práticas nocivas! Você pode estar em qualquer lugar, ocupando qualquer posição. O importante é se responsabilizar pela segurança e bem estar dos pequeninos, porque Deus quer que todos nós cuidemos de sua criação.