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Campanha de Oração NE: O comprometimento pela vida do outro

 

 

Como abordar um tema tão delicado? Como falar da dor de desabrigar se? O silêncio é uma opção? Certamente que não. Mas não há palavras mágicas para o alívio de uma dor tão aguda, mas há escuta. Como igreja não podemos fechar nossos ouvidos às angústias do mundo, muito menos dos nossos irmãos que vivem dias difíceis.

Partindo do princípio que Deus nos concedeu vida material e espiritual, ato que demonstra sua graça, misericórdia e bondade, ficamos vezes nos perguntamos como é possível um cristão desejar a sua própria morte a ponto de cometê-la, ou como ele pode viver a dor de se sentir desamparado no mundo sabendo que tem um Pai celestial? As respostas não são tão simples, e nem é o intuito responde-las, mas quando se fala de suicídio, a morte voluntária, precisamos entender que ela é multifacetada, logo não se trata de ter ou não fé em Deus.

Não existe uma única causa para o suicídio, existem fatores de riscos, condições que estatisticamente se mostram cenários onde o suicídio ocorre com mais frequência. Em geral, pessoas diagnosticadas com transtornos mentais cometem mais suicídio que a população que não apresenta nenhuma psicopatologia. A depressão por sua vez lidera o ranking de transtorno associado ao suicídio. Situações de violência, vulnerabilidade social, estar na faixa etária entre 15 a 29 anos, tentativas prévias de suicídios, ser da comunidade LGBTQI+, população de países de terceiro mundo também aumentam as chances de suicídio. Reforço que nenhum desses itens são determinantes, mas encontramos muito mais casos expressivamente dentro desse desses grupos. Tal fato também não pode passar despercebidos aos nossos olhos, pois expressam que há um sofrimento comum a essas pessoas que cominam muitas vezes em finais trágicos.

O suicídio é considerado pela OMS uma questão de saúde pública. Cerca de 800 mil pessoas cometem suicídio por ano e em 2019 aproximadamente 32 pessoas por dia se suicidaram só no Brasil. Sabemos hoje que há cerca de 11,5 milhões de pessoas diagnosticadas com depressão no Brasil, imagine mundialmente. Muito provavelmente você conhece pessoas que vivem a depressão, ou que vivem qualquer outra condição de risco para o suicídio. O suicídio é a segunda maior causa de morte entre jovens, o que nos faz entender a relevância da temática e nos questionar, como temos lidados com o suicídio dentro das igrejas? Ou o que a igreja tem tentado fazer a respeito? Como temos cuidado dos nossos jovens? Como temos cuidado dos nossos amigos, irmãos, colegas que vivem com algum transtorno mental? Como acolhemos e minimizamos o sofrimento humano?

Na Bíblia temos algumas situações de personagens que desejaram profundamente a sua morte como Jonas, que após dias exaustivos fazendo o que Deus lhe pediram, depois de ter perdido tudo e sofrido consequências de não ter aceitado de primeira a ordenança divina, se sente extremamente frustrado e lesado por Deus e expressa seu desejo de morte (Jn 4). Elias, que fugido da rainha Jezabel e sem perspectiva de vida, passa dias andando a esmo no deserto, sentindo-se abandonado e solitário, pede que Deus o retire do mundo (1Rs 19: 4 - 13). Nenhum dos dois personagens chegaram a vias de fato, mas Deus fala pessoalmente aos dois em meio a sua dor, dando-os respostas e ampliando as perspectivas do presente.

Por ser uma realidade multifacetada, ela precisa de uma ação de combate especializada e em uma rede de apoio. Há centros, institutos, grupos focados no combate e posvenção ao suicídio, cursos de formação, trabalhos voluntários, cartilhas, teóricos que falam sobre, um leque de possibilidades para prevenir o suicídio, sim, porque ele é prevenível. Apesar de acreditar que é necessário buscar uma boa formação para servir melhor, há algumas atitudes simples que podem ser executadas por qualquer um como:

 

  1. 1) Não diga nenhuma dessas coisas quando alguém em sofrimento psíquico te procura: “Busque Deus”, “Confie em Deus”, “Deus sabe de todas as coisas”, “Há uma razão para tudo!”. Essas frases podem estar cheias de sentidos, mas elas são vazias de poder. Frases não curam, afetos sim!
  2. 2) Seja suporte para alguém. Estar presente como “brisa suave”, assim como Deus esteve com Elias em sua caminhada pelo deserto, pode te ajudar a construir relacionamentos mais saudáveis e duradouros. Assim, as pessoas podem recorrer a você quando precisarem.
  3. 3) Não force uma conversa! Conversar é essencial. Se você conhece uma pessoa que está em crise, busque saber como ela está, mas não force uma conversa. Se mostre disponível genuinamente, mas não pratique o interrogatório.
  4. 4) Sua ajuda não substitui a escuta profissional! Inclusive, busque saber se a pessoa está fazendo algum acompanhamento profissional. Se não, incentive a pessoa a procurar e busque saber como está sendo a evolução do tratamento.
  5. 5) Troque as frases: “Mas você não pensa na sua família, nas pessoas que te amam” por “as pessoas que te amam estão aqui para te dar suporte no que precisar”. A primeira frase tem um teor mais julgador, enquanto que a segunda mostra empatia.

 

 

 

 

 

 

 

Sabemos bem que o Deus a quem conhecemos, em todo seu caráter relacional, é conhecedor do nosso sofrimento e se importa com nossas feridas, assim como fazia com o povo de Israel (Sl 147:3).  Então, sim, Deus conhece nossas dores, transtornos, realidades e através de sua infinita graça capacitou bons profissionais para o cuidado dos seus filhos. Infelizmente, ainda há um medo de buscar tratamento ou de assumir um problema emocional, de tomar medicações específicas quando necessário. Quero te encorajar a buscar ajuda profissional ou a apoiar alguém que precisa dessa ajuda. Creio que dessa forma você estará reluzindo a compaixão e cuidado que Cristo tem por você e pelo corpo dele, sua igreja.

 

REFERÊNCIA

 

No Brasil 32 pessoas se suicidam por dia, maioria é homem jovem.
https://smabc.org.br/no-brasil-32-pessoas-se-suicidam-por-dia-maioria-e-homem-jovem/

 

 

Folha informativa – Suicídio
https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=5671:folha-informativa-suicidio&Itemid=839

Folha informativa – Depressão
https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=5635:folha-informativa-depressao&Itemid=1095