A pedagogia do Amanhar

por Andressa Marinho

À primeira vista, podemos associar Amanhar a amanhecer. Durante algum tempo, foi assim que o compreendi. Talvez por desatenção. Mas a associação fazia sentido: já amanheceu, está amanhecendo e vai amanhecer até ser completamente dia. Celebramos um despertar que aconteceu no passado, reconhecemos o alvorecer em novos corações que carregam um antigo e renovado amor e contemplamos, com esperança, um futuro parcialmente oculto, como o sol que, antes de aparecer no horizonte, já dá seus sinais anunciando sua chegada.

O primeiro Congresso Missionário Estudantil da ABUB, em 1976, sob o tema “Jesus Cristo: Senhorio, Propósito e Missão”, fazia uma pergunta inquietante: “Quem Deus está chamando?”. A resposta apontava para todos os cristãos em todas suas áreas de atuação. Trinta anos depois, em 2006, “Esperança Viva em Jesus” perguntava: “Como viver a missão integral?” e indicava a percepção missiológica para novas temáticas. Já o Missão 2026 parece, em minha visão, ter lançado outra questão: como (continuar a) formar pessoas capazes de discernir e participar da missão de Deus em qualquer esfera da vida? Como animar esta geração a se engajar na missão com esperança?

O congresso Missão 2026: Amanhar celebrou, simultaneamente, os cinquenta anos do primeiro congresso e os vinte anos do segundo, enquanto apontava para os setenta anos que a missão estudantil fará em 2027. Não foi concebido como uma releitura dos encontros anteriores, mas como um novo congresso, pensado por e para esta geração.

No primeiro momento, parece mesmo um novo amanhecer. E também é. Mas é mais do que isso. Esse congresso, cultivado durante anos antes de acontecer, foi ele próprio solo, semente, flor e fruto. É então que descobrimos que amanhar não significa amanhecer

Significa “dar amanho a; arar, cultivar, lavrar”; “pôr em ordem, preparar”; “dispor algo para determinado fim”. Amanhar é preparar a terra antes da semeadura. É cuidar do solo para que a vida possa florescer.

Este é o tempo de amanhar, como foi dito na divulgação: tempo de preparar o terreno para a missão de Deus. Tempo de formação bíblica. Tempo de discernir vocações. Tempo de conectar pessoas às múltiplas possibilidades de serviço no Reino.

Foi a partir dessa compreensão que o congresso foi concebido.

Antes de o primeiro participante chegar ao congresso, o Amanhar já estava em cultivo.

Durante meses, equipes de diferentes áreas se reuniram para pensar cada detalhe. Os grãos, voluntários que sustentariam o evento, passaram por um processo próprio de formação. Não foram convocados apenas para executar tarefas, mas preparados para servir pessoas. A programação foi construída coletivamente. Os espaços foram nomeados. Os símbolos foram escolhidos. As artes, as cores, os materiais, os estudos bíblicos, as experiências, os momentos de silêncio, as músicas e até um crachá de papel-semente foram pensados para comunicar uma mesma linguagem de cultivo.

Por isso, o Amanhar não ofereceu apenas uma sequência de atividades. Ofereceu um percurso formativo para todos que o viveram.

As manhãs começavam antes mesmo da programação principal. Havia a oração comunitária e, em seguida, o silêncio reflexivo, descrito no caderno do participante como um tempo para “silenciar, respirar, rever suas anotações e organizar-se internamente sobre tudo o que Deus está plantando durante o evento”. Antes de mais uma exposição bíblica, era preciso aprender a ouvir.

As preleções recebiam um nome igualmente revelador: Semear a Palavra. Não eram apenas palestras. A Palavra era apresentada como semente lançada sobre diferentes tipos de solo. Depois dela vinham os pequenos grupos, onde essa semente era observada, interpretada, relacionada à vida e transformada em ações concretas por meio dos estudos bíblicos em pequenos grupos, sempre usando o método Estudo Bíblico Indutivo (EBI).

À tarde, os seminários ampliavam horizontes, mostrando que a missão atravessa diferentes áreas do conhecimento e da vida pública. Em seguida, as sementeiras eram atividades opcionais que ofereciam caminhos variados para que cada participante aprofundasse aquilo que mais dialogava com sua caminhada: teatro, cinema, realidade virtual, rodas de conversa, aconselhamento, oração, arte e outras experiências.

Nem mesmo os intervalos eram apenas intervalos. O Pomar reunia editoras, organizações missionárias, iniciativas educacionais e projetos do terceiro setor para favorecer encontros e conexões que pudessem frutificar muito depois do encerramento do congresso. A Incubadora de Projetos convidava os participantes a transformar discernimento em prática. O Amanhar do dia e o Colher do dia marcavam o ritmo cotidiano entre preparação, louvor e envio.

Até os títulos de cada dia contavam uma história: Colher, Solo, Semente, Flor, Fruto e Plantar. Não eram apenas temas que organizavam a programação. Juntos, construíam uma narrativa de cultivo.

E há algo curioso nessa sequência: o congresso começa em Colher e termina em Plantar. A trajetória não termina onde poderia parecer natural. Depois do fruto, não vem simplesmente a celebração da colheita, mas um novo plantio. O ciclo recomeça.

Assim, o Amanhar conduzia os participantes do solo à semente, da flor ao fruto e, finalmente, de volta à terra. Colher não era o ponto final; era condição para plantar novamente. O que foi recebido, aprendido e vivido durante o congresso precisava ser levado para outros solos. O fim do congresso já carregava, em seu próprio nome, o convite para o que viria depois.

Foi então que compreendi que aquelas atividades não existiam isoladamente. Elas formavam uma pedagogia.

Os relatos me fizeram perceber, porém, que essa pedagogia não produzia experiências idênticas. Havia diferentes movimentos de cultivo — aprender a escutar, receber a Palavra, experimentar, encontrar o outro e transformar o discernimento em prática —, mas cada participante recebia essas sementes de maneira diferente.

Foi por isso que voltei a ouvir o congresso, agora pelas vozes de quem esteve lá. Quis descobrir o que permaneceu quando as malas foram desfeitas…

O cultivo começou antes do primeiro dia

Antes de existir um congresso, existiu uma equipe. Antes de os participantes chegarem, havia pessoas preparando o solo. A preparação da equipe fazia parte da própria experiência formativa do congresso: quem acolheria também precisava ser cultivado.

Em janeiro, foi realizado o Antes de Amanhar, entre os dias 16 e 23 de janeiro de 2026, em Campo Limpo Paulista (SP). Foi um tempo de capacitação, conexão e formação de obreiros e grãos (voluntários).

Segundo Jessica Grant, cogestora do congresso missionário, os grãos participaram de oficinas práticas relacionadas ao trabalho, como compromisso, disciplina, gestão do tempo e autocuidado. Também foi um tempo de “mergulhar nos textos do congresso missionário”: passaram pelas parábolas, poesias e profecias do Antigo Testamento e aplicaram os estudos bíblicos de pequenos grupos que seriam utilizados no Amanhar.

Mas o preparo não parece ter sido percebido apenas como treinamento.

Talita Silva e Heitor Ribeiro, de Goiânia, participaram da formação apenas cinco dias depois do seu casamento — que, aliás, teve missões como tema. Para eles, aquele período foi um tempo precioso de aprender a descansar e confiar no Senhor, cultivar esperança e fazer amigos de diferentes lugares.

Larissa Couto, da ABU Seropédica, descreveu o encontro como “o momento em que a equipe pôde se conhecer, conversar, orar e compreender um pouco do outro, de suas áreas”. Para ela, foi uma espécie de “pré-estreia de um filme muito esperado”, na qual a equipe se sentiu “tranquila, preparada, preenchida com a Palavra de Deus e pronta para transbordar dela”.

Mas é outra parte de seu relato que talvez revele melhor o sentido desse preparo:

“Fomos ali para trabalhar, suar e tal, mas fomos recebidos com muito amor, pensaram no nosso coração, na nossa alma e cuidaram dela, bem antes de requisitarem nossos trabalhos! Isso para mim foi muito lindo!”

A fala desloca o olhar da função para a pessoa. Antes de requisitar trabalho, era preciso cuidar de quem trabalharia.

A secretária de formação e engajamento missionário da ABUB, Fabi Pereira, conta que se emocionou ao ver jovens dispostos a carregar cadeiras e servir sem reservas, usando seus dons e talentos para o reino. O trabalho que, à primeira vista, poderia parecer apenas operacional ganhava outro significado: servir também fazia parte da experiência de missão.

O Amanhar começou, portanto, antes que qualquer participante entrasse no espaço do congresso. Começou na formação daqueles que receberiam, serviriam, traduziriam, organizariam, conduziriam e cuidariam. Antes de cultivar nos participantes as sementes que seriam lançadas ao longo daqueles dias, era preciso cultivar quem faria esse trabalho.

A primeira semente: aprender a escutar

A programação durante o Missão 2026 começava cedo. Havia oração comunitária. Depois, silêncio. Não era um intervalo entre atividades. Era parte da experiência formativa. O congresso ensinava, desde o início de cada manhã, que ouvir Deus exige desacelerar.

Letícia Neres, da ABU FFLCH USP, comentou que, mesmo sendo um momento opcional dentro da programação, “foi realmente uma reunião de oração com bastante gente animada para estar ali”. Para ela, aquilo revelava “a fome que as pessoas estavam de participar e de comer a Palavra de Deus”. Até mesmo acordar mais cedo e ouvir os pássaros enquanto falava com Deus se tornou uma experiência especial.

O relato de Luiz Eduardo, estudante do terceiro ano do Ensino Médio em Teresina, mostra outro desdobramento. Um dia, depois da oração comunitária, seu grupo continuou conversando e refletiu sobre “a missão para a qual somos chamados”. Para ele, Deus usa a missão para se aproximar de nós: não porque Deus tenha necessidade dela, mas porque, por meio dela, ele nos aproxima dele e nos faz espalhar sua Palavra.

A primeira semente era a capacidade de permanecer em escuta.

A segunda semente: a Palavra lançada

Cada manhã começava com o Amanhar o dia, conduzido pelos colibris Guima e Xodó, ambos assessores da ABUB, e seguia para momentos de louvor preparados para o congresso. Segundo Tiago da Costa, responsável pela equipe de música, o repertório foi construído de forma colaborativa, buscando refletir o tema do Amanhar e a diversidade da ABUB.

As canções foram escolhidas a partir dos textos bíblicos de cada dia, equilibrando músicas congregacionais, clássicos da ABUB e composições mais recentes, reunindo diferentes tradições cristãs e incorporando ritmos e instrumentos brasileiros. A intenção era que o louvor fosse, acima de tudo, comunitário: um espaço em que todos os participantes pudessem cantar unidos.

Um dos destaques foi “Terra Boa”, composta originalmente para crianças e que se tornou uma das respostas espontâneas dos participantes à Palavra recebida durante o congresso, e “Marcharemos”, entoada no encerramento, quando todos se abraçaram e cantaram juntos.

Para Tiago, mais do que uma apresentação musical, o louvor ajudou a guardar no coração as verdades anunciadas ao longo da semana, para que continuassem ecoando nas universidades, igrejas e comunidades muito depois do fim do Amanhar. Nesse sentido, o louvor também fazia parte do movimento de receber, guardar e responder à Palavra.

As principais preleções do Amanhar não eram chamadas simplesmente de pregações. Recebiam o nome de Semear a Palavra. Não era apenas uma escolha de linguagem. O próprio nome fazia da Palavra a semente lançada ao longo de todo o congresso.

Nos eventos da ABUB, esse momento recebe tradicionalmente o nome de exposição bíblica, para destacar o compromisso de partir das Escrituras, respeitando seu contexto e permitindo que o próprio texto conduza a reflexão. No Amanhar, o percurso bíblico foi construído a partir das parábolas agrícolas do Novo Testamento, em diálogo com profecias e poesias do Antigo Testamento, articulando cultivo, missão e discipulado.

Essa Palavra, porém, não foi recebida de uma única maneira. Os relatos dos participantes mostram como ela encontrou diferentes histórias e produziu diferentes perguntas, consolos e chamados.

Para Saymon, da ECU Costa Rica, uma das maiores descobertas foi compreender a parábola do semeador a partir da missão:

“Eu já tinha lido essa parábola muitas vezes, mas nunca a tinha visto a partir dessa perspectiva da missão. […] Muitas vezes nós saímos para semear, mas esquecemos de preparar a terra. Então a semente cai, mas cai em uma terra que ainda não está preparada para recebê-la. Primeiro é preciso identificar o que precisa ser preparado e compreender que existe um tempo necessário para isso. […] Será que eu sou uma boa terra?”

A metáfora do cultivo apareceu, assim, como uma pergunta sobre o próprio participante. Antes de pensar na semente que lançaria, Saymon foi levado a olhar para o solo que carrega dentro de si.

Luiz Eduardo, de Teresina, recorda especialmente a exposição de Alejandra Ortiz, da IFES, nossa comunidade internacional, sobre uma fé que não se limita ao indivíduo, mas participa da missão coletiva de Deus: “Nós somos chamados para participar da missão de Deus. É um caminho no qual Deus nos convida a caminhar e preparar”.

Já Manuela Virgínia Corrêa, ex-obreira da ABUB na região Sul, destacou o chamado à perseverança na semeadura:

“O que ficou para mim foi principalmente essa questão da semeadura: que nem sempre você vai colher, mas que você precisa semear. E também a ideia de que nada na sua história foi em vão”.

A mesma imagem foi retomada por Márcia d’Haese ao refletir sobre uma das mensagens de Anne Zaki. Para ela, a poda tornou-se um símbolo marcante do cuidado de Deus:

“Às vezes a gente acha que não vai ter fruto porque foi podado demais, mas foi podado o suficiente. […] Mesmo que você semeie com lágrimas, um dia volta com alegria colhendo os feixes.”

Esses relatos revelam algo que a programação, sozinha, não permitiria perceber. A mesma Palavra não produziu uma única resposta. Para Saymon, tornou-se uma pergunta sobre o próprio solo; para Manuela, um chamado à perseverança; para Márcia, uma nova maneira de compreender uma poda aparentemente dolorosa.

A Palavra foi semeada. E muitos saíram do Amanhar com a sensação de que esse cultivo apenas havia começado.

A terceira semente: experimentar a missão

À tarde, o congresso se desdobrava em diferentes espaços de experimentação: os seminários e as sementeiras. Cada formato abria uma possibilidade diferente de aprender, perguntar, escutar e experimentar a missão.

Os seminários aproximavam os participantes de temas e práticas diversas: evangelização e discipulado, história da missão, conjuntura e igreja, meio ambiente, entre outros.

Para Ester Rosa de Brito, da ABU Brasília, o congresso permitiu conversar sobre “o evangelho e as questões ambientais, raciais, violência, pesquisa e outros” em um ambiente seguro, que ajudava a perceber “o agir de Deus com mais sensibilidade, desde o ouvir”.

Alguns seminários também ampliavam o horizonte para além das fronteiras brasileiras. No encontro da IFES, Ester experimentou a missão como convivência:

“Conviver, criar laços e fazer amizades com o pessoal da América Latina foi e está sendo viver a unidade de todos os povos, tribos e nações na prática”.

Depois, as sementeiras. Teatro. Cinema. Realidade virtual. Rodas de conversa. Aconselhamento. Arte. Tudo isso comunicava, por diferentes linguagens, que a missão é maior do que um púlpito. Ela pode ser aprendida também pela imaginação, pela conversa, pela escuta, pela beleza e pela prática.

Um dos exemplos foi o Experimento Marcos, uma proposta que transformava o estudo do Evangelho de Marcos em uma experiência coletiva. A proposta não era simplesmente acrescentar uma atividade à programação, mas mostrava que experimentar a missão também podia significar experimentar outras formas de aprender a Palavra.

Juan Santos, da ABU Curitiba, participou dessa experiência sem sequer saber inicialmente no que estava se envolvendo. Quando descobriu a dinâmica, sua primeira reação foi pensar: “Vocês estão doidos! Isso não vai dar certo”. O desafio era ainda maior porque ele não sabia qual personagem interpretaria nem quais falas precisaria assumir. Durante seis semanas, porém, ele e os demais participantes estudaram o Evangelho de Marcos, acompanhando a sequência dos acontecimentos. Só ao chegar a São Paulo, poucos dias antes da apresentação, Juan descobriu seu papel e começou os ensaios.

A experiência acabou se tornando, para ele, mais do que uma atividade do congresso. Foi um exercício concreto de confiar em Deus diante daquilo que não se controla. Juan conta que chegou a pensar: “Não tem como… Eu sou péssimo de memória […] Como é que vou lembrar tudo o que tenho que falar?”. No entanto, aquilo que parecia impossível acabou acontecendo. Ao falar sobre o momento, ele o descreveu como um teste de fé e uma experiência muito forte do mover de Deus.

É significativo que, depois do Amanhar, Juan tenha manifestado o desejo de levar essa experiência para outros lugares. Em conversa com um participante de Florianópolis, surgiu a ideia de organizar o Experimento Marcos na região Sul. Assim, aquilo que havia sido experimentado no congresso poderia continuar circulando e sendo recriado em outros contextos.

Essa circulação de experiências também acontecia nas mesas-redondas, que colocavam em diálogo pessoas com diferentes trajetórias: fé e negritude; meio ambiente; desafios dos campos missionários. A missão podia ser vista, assim, a partir de diferentes experiências e campos de atuação.

A mesa “O amanhã não está à venda”, dedicada às questões ambientais, tornou-se particularmente significativa para Joyce Cutrim Loureiro, da ABU Campo Grande. Estudante de biologia, ela vinha de uma inquietação sobre como relacionar sua formação acadêmica à realidade missionária. Participar da mesa foi, para ela, como o fechamento dessa crise:

“Poder compartilhar esse espaço com pessoas tão engajadas nessa causa e voltar os nossos olhos para a ordem que o Senhor nos deu desde a criação, de cuidar daquilo que ele mesmo criou, foi muito significativo”.

Para Joyce, a conversa não terminou na mesa. Ela percebeu que cuidar da criação também é fazer missão e que essa compreensão poderia alcançar outros estudantes, diferentes denominações e igrejas locais:

“As sementes plantadas foram as mais diversas: estudantes de diferentes áreas ampliando sua compreensão sobre essa temática; jovens de diversas denominações levando essa pauta para suas igrejas locais; e pessoas, e eu me incluo nisso, que passaram a enxergar que cuidar da criação também é fazer missões”.

A experiência de Joyce mostra como o congresso podia deslocar uma inquietação acadêmica para dentro da reflexão sobre missão e, ao mesmo tempo, devolver a missão à universidade.

Experimentar a missão era descobrir que não havia um único lugar onde a semente pudesse germinar.

A quarta semente: cultivar uma comunidade onde todos possam participar

Experimentar a missão também exigia perguntar quem estava conseguindo participar dessa experiência.

A acessibilidade, nesse sentido, não aparecia apenas como um conjunto de recursos complementares. Os relatos mostram uma maneira mais ampla de pensar comunidade: quem está aqui? O que essa pessoa precisa para participar? Como ela pode contribuir?

Juan Santos contou que, antes do congresso, a equipe entrou em contato para compreender suas necessidades, que tipo de auxílio seria importante e o que ele preferia ou não. Para ele, esse cuidado foi significativo justamente porque partiu da escuta. Não se tratava de decidir por ele o que seria uma adaptação adequada, mas de reconhecer que cada pessoa possui necessidades próprias.

Durante o congresso, esse cuidado apareceu em práticas como a autodescrição e a orientação para que os palestrantes descrevessem os elementos visuais dos slides. Juan percebeu que as pessoas estavam aprendendo, junto com ele, a construir formas mais acessíveis de comunicação. Em outro momento da entrevista, resumiu essa experiência ao afirmar que a necessidade de cada pessoa é individual e que, por isso, perguntar é extremamente importante. Para ele, esse cuidado traduzia algo essencial da própria ABUB: acolher estudantes independentemente de suas diferenças.

O mesmo princípio apareceu nas fronteiras linguísticas.

Para Rayén, participante estrangeira, a tradução não foi simplesmente um recurso técnico: foi o que lhe permitiu compreender uma mesa-redonda que dialogava diretamente com sua própria história e vocação. Ela conta que chorou ao perceber que conseguia finalmente compreender aquela mensagem e que seu coração e sua mente haviam sido renovados por aquilo que ouvira.

A equipe de tradução precisou traduzir em tempo real as exposições bíblicas, mesas e outros momentos da programação para que participantes estrangeiros pudessem acompanhar o que estava sendo dito. Havia sotaques, regionalismos, piadas, referências históricas e conceitos próprios da realidade brasileira. Traduzir exigia escuta, preparo, sensibilidade e, muitas vezes, a capacidade de contextualizar em poucos segundos.

O relato de Nivia Oliveira Paiva mostra que essa tarefa também era uma forma de acolher. Em alguns momentos, ela acompanhava participantes específicos para garantir que não ficassem à margem do que acontecia. Em uma das mesas, por exemplo, uma participante precisava de tradução para acompanhar as intervenções dos convidados. Nivia se sentou ao seu lado e passou a traduzir simultaneamente as ideias gerais da conversa, permitindo que ela acompanhasse o diálogo e participasse daquele momento. A tradução, assim, deixava de ser apenas um recurso linguístico e se tornava uma maneira concreta de dizer: você também pertence a esta mesa.

Esse mesmo princípio apareceu no cuidado com as crianças. Elas não estavam no Amanhar apenas como acompanhantes dos adultos, nem receberam uma programação completamente desconectada do congresso. Houve uma preocupação em criar atividades que dialogassem com a temática do cultivo e da missão e, ao mesmo tempo, fossem compreensíveis e significativas para elas.

Fabi percebeu esse resultado ao observar as crianças envolvidas nas atividades e ao ouvir dos pais que havia uma conexão entre aquilo que elas estavam aprendendo e o que os demais participantes viviam no Amanhar. Elas podiam brincar e aprender, mas também participar, à sua maneira, da experiência de pensar a missão. O cuidado com as crianças, portanto, não significava apenas oferecer uma programação paralela: significava reconhecer que elas também faziam parte daquela comunidade.

O relato de Brendha torna essa percepção mais concreta. Entre as atividades propostas estavam plantar feijões, fazer caça ao tesouro, colorir e conversar sobre a parábola do semeador. Segundo ela, as crianças rapidamente relacionavam a parábola à própria experiência, percebendo que Jesus semeia o Reino de Deus em nossos corações e que também somos chamados a cultivar aquilo que ele nos confia.

Esse cuidado alcançava também os pais. Brendha conta que, ao servir as crianças, a equipe percebeu que estava possibilitando que seus responsáveis participassem mais ativamente do congresso. Nohemy, boliviana que mora em Campo Grande, depois de esperar vinte anos para participar de um congresso nacional da ABUB, ela chegou ao Amanhar acompanhada da filha, Emanuely. Para ela, levar a menina significava também deixar para a próxima geração uma herança da obra missionária. E aquilo que poderia parecer pequeno ganhou um significado especial: depois de voltar para casa, Emanuely ainda se lembrava dos amigos e dos voluntários e dizia que queria voltar a São Paulo para reencontrá-los.

Acessibilidade, tradução e cuidado com as crianças revelam, assim, uma mesma compreensão de comunidade: cultivar a missão também é construir espaços em que diferentes pessoas possam participar, compreender, contribuir e se reconhecer como parte do corpo.

Se a terceira semente convidava a experimentar a missão, esta quarta lembrava que experimentar também implica pertencer. Antes de perguntar o que cada pessoa poderia fazer, era preciso criar condições para que pudesse estar, compreender e participar.

E isso também era uma forma de amanhar.

A quinta semente: ninguém cultiva sozinho

O Pomar talvez seja um dos símbolos mais bonitos do congresso. Não era apenas um corredor de estandes, mas um espaço pensado para favorecer conexões que pudessem frutificar no futuro. Ali, pessoas conheceram organizações missionárias, fizeram amizades, encontraram ministérios e perceberam novos caminhos.

Para Leandro Santos, diretor do Centro Evangélico de Missões (CEM), o Pomar funcionou como um ambiente propício para aproximar a juventude da missão e permitir que diferentes atores somassem forças e vissem a “engrenagem” do Reino se movimentar. Durante o evento, ele presenciou o brilho nos olhos de estudantes ao descobrirem que profissões como engenharia e medicina também podem ser ferramentas de missão integral.

Seu relato evidencia que essa construção depende da relação entre diferentes espaços. A missão estudantil, para ele, precisa do vigor dos estudantes nas universidades, da estrutura de preparo das organizações e do pastoreio e sustento oferecidos pelas igrejas locais. Não se trata apenas de reunir diferentes atores, mas de reconhecer que eles são interdependentes.

Essa percepção ganhou contornos práticos na experiência de quem circulou pelo Pomar. Brendha, que serviu como grão, relatou o impacto de conhecer diferentes organizações. Para ela, foi significativo contemplar a multiforme graça de Deus manifesta por meio de profissionais, famílias e igrejas que aceitaram o chamado para ser instrumentos de Cristo em diferentes lugares — do cotidiano mais próximo aos confins da terra.

Mas as conexões produzidas pelo congresso não aconteciam apenas entre organizações. Elas também se construíam entre pessoas.

Manuela, ex-obreira da ABUB na região Sul, que retornou a um evento nacional da ABUB após treze anos, destacou que o que mais levaria do congresso eram justamente as pessoas que conheceu e reencontrou. Mais do que a programação formal, foram a comunhão e as conversas ao redor das mesas de café da manhã, almoço e jantar que deram um significado especial aos seus dias. Nesses encontros, ela percebeu que o amor por Jesus e o desejo de semear continuavam vivos na nova geração.

As mesas, os corredores e os espaços de convivência também cultivavam relações. A rede missionária não se construía apenas nos momentos oficialmente destinados à formação, mas nas conversas, reencontros e descobertas que aconteciam ao longo do dia.

Essa dimensão relacional também apareceu na reflexão do assessor auxiliar na região Nordeste Judson Augusto sobre o desafio do ministério estudantil de construir pontes e superar os muros erguidos entre a igreja e a universidade. Para ele, o congresso foi um espaço de renovação das bases da missão comunitária. A imagem do cultivo ajudava a lembrar que o trabalho de lançar sementes exige confiar em um Deus que age a partir de pequenos começos e enxerga a árvore plena no tempo certo.

Assim, cultivar juntos também significava aproximar espaços que muitas vezes permanecem separados: estudantes e igrejas, universidades e organizações missionárias, profissionais e comunidades, diferentes gerações e trajetórias.

E essa comunidade não terminava nas fronteiras do Brasil. A dimensão internacional do Amanhar ampliou ainda mais essa rede. Ester descreveu o convívio com estudantes e movimentos irmãos da América Latina como uma experiência concreta da unidade de povos, tribos e nações. Juan relatou o impacto de conhecer e interagir com irmãos do Panamá, Colômbia, Peru, Congo, Canadá e Estados Unidos, atravessando diferenças culturais e linguísticas. Saymon, da Costa Rica, também encontrou no congresso um espaço de confronto e inspiração ao ouvir histórias de missionários de diferentes contextos que entregaram suas vidas ao reino de Cristo.

O encontro entre essas diferentes realidades mostrava que a missão não se limita a um país, uma profissão, uma igreja ou uma organização. Há uma rede muito maior de pessoas e comunidades cultivando em diferentes solos, aprendendo umas com as outras e compartilhando aquilo que receberam.

O Amanhar, assim, não apenas reuniu pessoas. Colocou-as em relação.

E algumas dessas relações continuam produzindo frutos muito depois de o congresso terminar.

A sexta semente: transformar discernimento em prática

Depois de ouvir, refletir, conversar, experimentar e encontrar outras pessoas, vinha a pergunta: e agora?

A Incubadora de Projetos dava espaço para que aquilo que havia sido despertado durante o congresso começasse a ganhar forma. Não se tratava apenas de planejar o futuro, mas de transformar discernimento em prática.

Para Wilker, participante de 36 anos, de Santo André (SP), a Incubadora foi o lugar onde ideias que ainda precisavam sair do papel puderam ser compartilhadas e amadurecidas. Ele a descreve não como uma mera sala de reuniões, mas como uma verdadeira roda de conversa comunitária, em que os participantes podiam se sentar, ouvir e apoiar os projetos uns dos outros.

Wilker conta que já sentia Deus o direcionando a iniciar seus projetos durante o próprio evento. Foi, porém, naquele espaço de escuta e partilha que encontrou confiança para dar os primeiros passos. A experiência do congresso começava, assim, a deixar de ser apenas uma experiência vivida e se tornava possibilidade concreta de ação.

Ao relacionar a Incubadora à linguagem do Amanhar, ele resume:

“A incubadora foi como um lugar de semeadura, onde pudemos lançar nossas sementes escondidas para fora e dar a elas a oportunidade de germinar e crescer”.

A imagem retoma um movimento construído desde o início. A semente recebida no silêncio agora precisava ser lançada. A Palavra ouvida precisava se transformar em decisão. O discernimento precisava encontrar uma prática. E aquilo que havia sido experimentado em comunidade precisava ganhar novos contextos.

Por isso, o caminho não terminava em Sumaré. As sementes precisariam retornar ao solo de origem: universidades, igrejas, cidades, profissões, grupos locais e relações cotidianas. Era ali que o que havia sido recebido durante o Amanhar poderia continuar germinando.

O congresso oferecia o solo, lançava sementes, criava espaços de cultivo e aproximava pessoas. Mas a continuidade desse cultivo dependeria do que cada participante faria depois.

E então vêm as colheitas: o amanhã que já começou

É aqui que o congresso deixa de ser apenas um evento no calendário e passa a continuar na história de quem volta para casa.

Quando o foco se desloca da programação para as pessoas, percebe-se que cada participante saiu carregando uma colheita singular. A mesma pedagogia produziu frutos diferentes porque encontrou histórias, contextos, perguntas e chamados diferentes.

Um chamado

O futuro se fez presente na coragem de jovens como Saymon, da Costa Rica. Desafiado pelas Escrituras e pelas histórias de fidelidade compartilhadas no Amanhar, ele encontrou palavras para expressar o desejo de se colocar à disposição de Deus, vencendo o medo e a vergonha para anunciar o evangelho também dentro da universidade.

Nele, a semente parecia tomar a forma de chamado.

Uma nova maneira de olhar para a universidade

Para Luiz Eduardo, estudante do Ensino Médio do Piauí, a convivência com universitários cristãos durante o congresso transformou também a maneira de imaginar o futuro. A ansiedade diante do vestibular deu lugar à expectativa de encontrar, na universidade, não apenas um espaço de formação profissional, mas também um campo de missão.

Nele, a semente começava a ganhar território.

Uma vocação confirmada

Para estudantes como João Marcos, de São Paulo, o Amanhar funcionou como confirmação de um chamado de permanecer fiel e de conhecer ao Senhor e fazê-lo conhecido. Para ele, “muitas portas foram abertas”.

A experiência não necessariamente criou uma vocação nova. Em alguns casos, ajudou a reconhecer, nomear ou confirmar aquilo que já vinha sendo cultivado.

Uma ponte entre gerações

Olhando para a história da ABUB, essa colheita ganha ainda outra dimensão.

Manu Gonçalves, que participou do Missão 2006, em Viçosa, e retornou ao Amanhar depois de anos distante, encontrou no congresso a alegria de perceber que o amor por Jesus e o desejo de semear permanecem vivos em uma nova geração.

O encontro entre diferentes gerações lembrava que aquilo que foi plantado antes continua sendo cultivado. E que o que hoje é cultivado poderá ser colhido por pessoas que ainda nem chegaram.

Uma esperança para o futuro

Essa perspectiva de longo prazo também apareceu nas reflexões de Leandro Santos, ao apontar para a necessidade de vocações duradouras e enraizadas.

Ela encontra eco nas palavras emocionadas de Márcia d’Haese, que, ao recordar os primórdios da criação do Smilingüido a partir de sementes lançadas no congresso de 1976, olhou para os novos estudantes com esperança:

“Este pessoal que está aqui pela primeira vez no congresso da ABUB talvez não saiba, mas daqui a 50 anos eu tenho certeza de que eles vão também trazer os feixes com alegria, como eu estou trazendo neste congresso”.

Talvez seja essa a colheita que mais interessa ao Amanhar: não apenas aquilo que aconteceu durante aqueles dias, mas aquilo que ainda poderá acontecer por causa deles.

Uma semente pode parecer pequena quando é lançada. Seu tamanho, porém, não determina a árvore que poderá nascer.

Algumas sementes ainda estão debaixo da terra. Outras já começaram a romper o solo. Outras talvez só sejam reconhecidas muitos anos depois.

O futuro do Amanhar, portanto, não pode ser medido agora.

No começo, pensei que Amanhar fosse amanhecer. Agora entendo que a diferença entre as duas palavras diz muito sobre o que aconteceu ali. Amanhecer é a chegada de um novo dia; amanhar é preparar a terra para que algo possa nascer. Um acontece diante dos olhos. O outro exige trabalho, cuidado, espera e disposição para continuar cultivando mesmo antes de ver o fruto.

Talvez por isso o congresso tenha terminado em Plantar.

Depois de colher, era preciso voltar à terra. O que havia sido recebido durante aqueles dias não deveria permanecer em São Paulo. Precisava retornar às universidades, às igrejas, às cidades, às profissões, aos grupos e às relações cotidianas de cada participante.

Foi esse o movimento que atravessou o Amanhar: preparar pessoas para ouvir; lançar a Palavra; criar espaços para experimentar a missão; cultivar uma comunidade em que diferentes pessoas pudessem participar; colocar pessoas em relação; transformar discernimento em prática.

E então plantar novamente.

Talvez algumas dessas sementes já tenham começado a germinar. Outras ainda estejam debaixo da terra. Algumas só poderão ser reconhecidas muitos anos depois. Mas o fato de não vermos ainda o fruto não significa que o cultivo tenha terminado.

O Amanhar não foi o amanhecer que eu havia imaginado. Foi algo mais paciente: um convite a preparar o chão para o que ainda não podemos ver.

Por isso, o congresso precisou terminar.

O congresso acabou. O cultivo, não.

Grupo grande de pessoas com roupas coloridas posam para foto oficial do congresso Missão 2026: Amanhar em frente a um prédio branco e árvores grandes durante o dia. A foto está de cima para baixo e é possível ver bandeiras com logo da ABUB, bandeira do Brasil, de Minas Gerais e outros países da América Latina.
Foto oficial Missão 2026: Amanhar. Créditos: Rafael Prado.


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