Entre nós

Uma só missão

 Entrevista: José Miranda Filho, funcionário público aposentado e presbítero há 29 anos da Igreja Presbiterana do Planalto, em Brasília (DF).

Ele é casado com Luzia, com quem teve 4 filhos que lhes deram 5 netos.

 

Como você descreve sua experiência de conversão?

No meu caso acho que houve uma longa “gestação” até que eu tivesse consciência da Luz que me atingiu. O dia “oficial” seria numa reunião do grupo de ABU em Fortaleza. Nesse dia os estudantes tratavam mais de coisas administrativas do que devocionais. Minha mente trabalhava para achar solução para as questões apresentadas. Desde essa noite nunca mais faltei às reuniões. Não houve um dia em que eu “levantei a mão”. Me entendi como cristão e pronto: assumi o papel.


E sobre sua percepção de  “se reconhecer missionário”? Como ela foi estabelecida?

Um versículo que me falou muito está em Josué, quando Deus disse que havia dado a Josué, para conquista, “todo o lugar onde pisar a planta do vosso pé”. Entendi que eu era enviado para a universidade, para o meu trabalho, para as minhas relações afetivas, como anunciador do evangelho e testemunha do que Deus havia feito em minha vida. Essa mensagem deveria ser vivida e falada.

 

2 - Qual o papel da Igreja para a compreensão do “chamado” missionário de cada cristão?

A Igreja deve ser um lugar onde o evangelho é ensinado e vivido. Os jovens devem aprender que são chamados em primeiro lugar para servir a partir da vivência do evangelho, manifestado em atos de misericórdia, consolação e esperança. Devemos ensinar que, apesar de Deus nos ajudar em nossos problemas, não vivemos basicamente para resolvê-los. Nosso chamado básico é para chamar ao arrependimento e proclamar o perdão em Jesus, para que uma nova vida nasça em cada coração contrito. Com a consciência de servos fiéis e gratos, teremos condições de compartilhar nossa experiência de fé onde quer que estejamos.

 

3 - Qual o desafio da “prática missional” para a igreja evangélica hoje?

No meu entender a igreja evangélica deve voltar ao foco principal do evangelho. Infelizmente muitas de nossas denominações têm se voltado mais para atrair fiéis buscando alívio de seus problemas do que no chamado ao arrependimento dos pecados para a salvação em Cristo Jesus. É um desafio enorme deixar a questão da solução de nossos problemas pessoais (inclusive prosperidade) em segundo plano para focar no chamado à santidade e a um testemunho que inspire um mundo sedento de exemplos. Ser um cristão ético, misericordioso, bom cidadão, servidor do próximo, é condição para que a pregação do evangelho seja revestida de autoridade e atinja os corações desorientados.

4 - Se o envio é para cada cristão, como podemos aprimorar essa compreensão?

Não devemos complicar a compreensão do que seja missão. Às vezes, tentando explicar missão, acabamos tornando a coisa confusa e alienada dos demais aspectos de nossas vidas. Devemos aprender que nossa missão é viver o cristianismo todos os dias, não importa onde estejamos ou o que estamos fazendo. Nossa vida deve ser uma propagação, uma inspiração, uma “vitrine” que mostre ao mundo o que o evangelho faz a uma pessoa. Devemos “ser” muito mais do que “fazer” e assim nosso “fazer” será consequência natural do “ser”. O envio de alguém para algum lugar é um tipo de missão. Na maioria dos casos, porém, nossa missão está em cada área de nossa vida cotidiana.

 

5- Qual conselho você daria para o estudante cristão que está indo para a universidade? Há alguma história real que poderia ilustrar este conselho?

Na faculdade, quando “me converti”, eu dizia que minha missão lá era viver o evangelho e, de passagem, eu pegaria meu canudo. Hoje eu aprimoraria minha afirmação dizendo também que “pegar o canudo” de forma ética e responsável, com clara intenção de servir ao país, é um dos aspectos da vida no evangelho. Meu conselho é que o estudante se aplique à vida devocional e à oração com tanto afinco como aos seus estudos. Os desafios são grandes e sem o discernimento do Espírito Santo, a mente de um calouro pode ser facilmente confundida. Nunca se esqueçam daquele que nos coloca na faculdade. Infelizmente muitos dos que mudaram o seu foco se perderam no caminho.


6 - Qual conselho você daria para a igreja que “envia” um estudante para a universidade? Há alguma vivência em sua igreja que poderia descrever?

Classes de jovens na escola dominical da igreja deveriam ensinar o evangelho contextualizado à universidade. Práticas de debates sobre as posições bíblicas em questões atuais, à luz da afirmação de que o Reino de Deus começa com justiça, poderiam ajudar bastante desde que desenvolvidos em oração, não deixando o intelecto dominar sobre a orientação do Espírito. Em nossa igreja há muitos líderes oriundos de movimentos estudantis. Isso ajuda alguma coisa. Mesmo assim tem havido baixas entre nossos jovens ainda que não tenhamos noção clara sobre o peso da influência universitária nesses acontecimentos.

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